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Denise M. Osborne
Denise M. Osborne
Trump e a Cozinha Mineira
30/07/2019, às 12:25:49

O VIII FliAraxá 2019 que acabou de acontecer em junho nos deu uma oportunidade rara de experienciar por quatro dias um mundo de saberes e reflexões, que tanto nos ajuda a crescer intelectualmente como também (e mais importante) humanamente. Em uma das apresentações locais em que eu estava presente, o professor americano Steven Byrd fez uma apresentação da sua pesquisa sobre a comida tradicional mineira e suas conexões com a nossa história e cultura - trabalho que foi publicado em inglês em uma revista especializada nos Estados Unidos.

Uma senhora que estava assistindo fez a seguinte pergunta para Steven: “Você acha que Mister Trump, sofisticado como ele é, iria querer comer nossa comida?”. Essa pergunta nos remete a vários pontos e convido o leitor para embarcar comigo nessas reflexões. As primeiras perguntas que vieram a minha cabeça naquele momento foram “O que é ser sofisticado?” e “Por que Donald Trump é percebido como um homem sofisticado?” Uma pessoa linguisticamente sofisticada poderia ser descrita como alguém que tem um vocabulário composto de palavras mais incomuns, sentenças longas e estruturas sintáticas mais complexas. Nesse sentido, os discursos de Trump não se encaixam nesta classificação – eles são marcados por expressões e frases curtas que se repetem. O padrão discursivo de Trump tem até um nome: Trumpismo. Alguns exemplos são “believe me” (acredite em mim), “people say” (as pessoas dizem), “Sad!” (Triste!). Trump também usa hipérboles constantemente como “tremendous” (tremendo) e “huuuuge” (enoooorme). Uma de suas frases famosas é “We’re going to win bigly.” (Nós vamos ganhar enormemente.) Veja que a palavra “bigly” não existe no inglês moderno.

Por outro lado, o Trumpismo tem ajudado o presidente Trump a se conectar com seus eleitores que o descrevem como espontâneo e autêntico – “Ele fala o que está na minha cabeça.” – disse uma eleitora de Trump, toda entusiasmada, em um programada de TV. Manter um discurso simples parece ser uma boa estratégia para um político. Além disso, sabemos que o que importa linguisticamente é o ato de comunicação – por exemplo, o uso de palavras mais sofisticadas poderia deixar seu discurso impreciso. Usando palavras simples e repetindo ideias e expressões, Trump se conecta com a classe média trabalhadora americana que votou em peso para ele nas últimas eleições.

Seria o estilo de vida de Trump sofisticado? O gigantesco apartamento de Trump em Manhattan parece mais um palácio saudita: há um massivo uso da cor dourada, candelabros enormes e relíquias famosas. Tudo em seu lugar, como um museu (você pode verificar isso nas várias fotos postadas online). Seu apartamento é mais uma mensagem pública de riqueza do que um espaço pessoal. Carece daquele toque mais íntimo que torna nossas casas um ambiente aconchegante e acolhedor. Veja também que a linha que divide o sofisticado e o brega é muito tênue, principalmente se pensarmos, por exemplo, no uso exagerado do dourado.

Voltando à pergunta que a senhora fez ao professor Steven, a suposição de que Trump é um homem sofisticado pode estar ligada à relação que geralmente as pessoas fazem entre poder e sofisticação. Por exemplo, a chegada da corte portuguesa no Brasil colônia influenciou as mulheres a se vestirem como na Europa, mesmo sendo inapropriado para o clima tropical brasileiro. As novelas brasileiras influenciam o estilo de roupa, cortes de cabelos e linguagem dos brasileiros. O que os atores ou atrizes apresentam para o público é associado a sua imagem, e isso cria uma situação favorável para a aceitação de uma nova prática.

Há, entretanto, outras reflexões que podemos fazer com relação à pergunta que foi feita ao professor Steven: na pergunta revela-se a ideia de que a comida mineira não é sofisticada, ou que não está à altura de uma pessoa como Donald Trump. É muito comum pensar que o melhor está longe de nós e o que está perto nos parece inferior. De acordo com a apostila entregue pelo professor Steven aos participantes de sua palestra, a comida mineira é parte do nosso patrimônio cultural de Minas Gerais por uma lei promulgada em 2016; é uma culinária fortemente ligada à história do Brasil; é culinária de vanguarda em que une o tradicional ao moderno. Moro nos Estados Unidos há mais de 18 anos – não me lembro de ver nada semelhante no país com relação à comida americana.

Ao responder à pergunta, o professor Steven explicou que Trump gosta mesmo é de fast food, como os hamburgeres de MacDonald’s e Burger King. Se Trump pudesse experimentar nossa comida mineira, ele certamente se tornaria mais exigente com seu cardápio diário - teria aprendido conosco o que é sofisticação culinária.
Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia