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Denise M. Osborne
Denise M. Osborne
O Deparar com a Verdade
14/10/2019, às 09:39:16

Sabe aqueles dias que você abre o jornal e só encontra notícias desumanizantes e de ódio?

Felipe Neto, o YouTuber mais popular do Brasil, tem recebido ameaças de morte por ter comprado e depois distribuído gratuitamente mais 14 mil livros intitulado “Vingadores, a Cruzada das Crianças” com temática LGBT, em São Paulo. Foi uma forma de reação às tentativas de censura do prefeito da cidade de São Paulo, Marcelo Crivella, ao beijo gay retratado no livro. Felipe Neto teve até mesmo que levar sua mãe para morar no estrangeiro por causa das ameaças à sua família.

Roberto Alvim, atual diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte e declarado apoiador de Bolsonaro, fez críticas fortes à atriz Fernanda Montenegro por ela ter tirado uma foto para a revista Quatro Cinco Um em que ela aparece vestida de bruxa sobre uma fogueira de livros. Alvim não poupou o vocabulário: a chamou de “mentirosa”, falou do “meu desprezo por ela”, que ela “mente escandalosamente, deturpa a realidade de modo grotesco, ataca o Presidente” etc.

É interessante como notícias como essas têm até certo ponto parado de nos chocar. Há uma normalização do absurdo, da discórdia e da fala de ódio, tanto ao nível público quanto privado. Quantos de nós não conhece alguém que perdeu amigos, se afastou de parentes ou quebrou laços familiares por questões de desentendimentos da visão política atual?

Talvez o melhor seria não ler os jornais. Ignorar aquilo que machuca. Não confrontar. Evitar e se distanciar como uma forma de sobrevivência.

Mas há algo positivo no enfrentamento. Como nos mostrou Freud, aquilo que se joga debaixo do tapete um dia volta. E nós, como nação, temos jogado muita coisa pra debaixo do tapete.

Bolsonaro tem nos provocado a enfrentar aquilo que está escondido no tapete. Chamar um torturador da ditadura militar de “herói nacional”, dizer que o pai do presidente da OAB foi morto por um “grupo terrorista” e não pelo regime militar e afirmar que a Comissão da Verdade que investiga crimes cometidos durante o regime militar é “balela”, para citar alguns exemplos, sacode o tapete e joga a sujeira que tentamos evitar na nossa cara.

Enquanto países como a Argentina e o Chile têm condenado agentes por crimes cometidos durante suas ditaduras militares, o Brasil seguiu em frente, deixando para trás essa história mal resolvida. Faltou fazer o atravessamento. Como tratar uma ferida, se a escondemos?

O enfrentamento é um processo doloroso. Entretanto, o apagamento de uma memória não é a solução. Temos que ir mais a fundo, trazer à tona aquilo que nos incomoda como nação, como desenterrar os crimes do regime militar e punir seus responsáveis.

Bolsonaro está nos forçando a deparar com aquilo que não queríamos enfrentar. Preferíamos continuar acreditando no mito do “homem cordial”, uma descrição do povo brasileiro por Sérgio Buarque de Holanda que aceitamos como parte da nossa identidade.

Não, não somos cordiais. Podemos sim ser cruéis, torturar nossos irmãos, violentar e matar. Podemos terminar amizades antigas por ideologias absurdas. Desumanizar aqueles que antes considerávamos parte da nossa família.

Ao enfrentarmos nossas verdades, tanto ao nível público quanto privado, fazemos o atravessamento e, como consequência, amadurecemos. Temos a chance de chegar do outro lado melhores, mais humanizados. É parte da nossa difícil caminhada de encontro com nós mesmos.
Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia