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Denise M. Osborne
Denise M. Osborne
05/08/2019, às 14:23:02
Paulo Freire e a Extrema Direita

O presidente Jair Bolsonaro disse que quer mudar o patrono da educação brasileira (entrevista divulgada no dia 29 de abril de 2019), título dado ao educador Paulo Freire em 2012. A declaração de Bolsonaro demonstra o quanto Paulo Freire incomoda à direita que está no poder. Mas por que Freire incomoda tanto?

Paulo Freire é um dos nomes brasileiros mais conhecidos no exterior. Quando vim estudar na Columbia University em Nova York, conheci pesquisadores americanos que se dedicavam ao estudo de Freire e seu impacto na educação. Descobri também que havia uma escola com o nome e a filosofia de Freire no estado vizinho do meu, Massachusetts, chamada Paulo Freire Social Justice Charter School. O seu livro mais famoso, Pedagogia do Oprimido, está na lista dos cem livros mais pedidos pelas universidades de língua inglesa no projeto Open Syllabus. Aliás, é o único livro de autor brasileiro na lista. Se Freire é tão respeitado internacionalmente, por que ele é temido? Qual é o perigo que Freire traz para a educação brasileira?

Freire se tornou conhecido por trabalhar com alfabetização de adultos em áreas pobres do Recife. Com seu método inovador, Freire alfabetizou cerca de 300 adultos em apenas 40 horas-aula, um ato admirável. Como ele foi capaz de fazer isso? Para Freire, tudo começa a partir do universo do aluno. Através de interações significativas entre professor e alunos, o contexto da sala de aula fornece as palavras e conceitos que serão os incipientes para a aula. Essas “palavras geradoras”, ligadas ao mundo real e ao cotidiano dos alunos, possibilitam trabalhar aspectos da realidade deles, ligando assim a sala de aula com o universo dos estudantes.

Na visão de Freire, educar é muito mais que aprender a ler e a escrever. Aprender não é regurgitar o que o professor diz, mas é interagir num contexto dinâmico, onde o que vai ser ensinado/aprendido é uma construção que se desenvolve nas interações na sala de aula. Freire estava preocupado em ensinar para a vida.

Freire era um defensor do direito de perguntar e um crítico do que ele chamava “cultura do silêncio”. Ele via a educação como uma forma de liberar as pessoas e de possibilitar sua participação no processo histórico. A experiência de libertação passa pelo desenvolvimento da consciência e do pensamento crítico. Para ele, a opressão, a injustiça e a violência nos desumaniza. Alfabetização é, então, uma forma de transformar a sociedade e o mundo.

Outros sistemas de ensino, como os colégios militares que Bolsonaro deseja expandir pelo país, enfatizam outros valores como a disciplina, a uniformização e a hierarquia. Entretanto, desenvolver a consciência crítica através da reflexão, do ato de questionar e da ação reflexiva pode ser muito perigoso para quem está no poder. Lembro-me de uma professora nos Estados Unidos que dava aulas de inglês para imigrantes que não sabiam inglês em uma fábrica, usando o método de Freire na cidade de Nova York. Os estudantes revelaram a ela que havia situações na fábrica que os incomodavam. A professora, então, os ajudou a escrever uma carta em inglês que foi entregue ao dono da fábrica.

Essa história que ouvi dessa professora foi um ótimo exemplo do uso da língua inglesa que era o objeto de estudo numa ação conjunta para transformar um contexto, mostrando como o aprendizado em sala de aula pode incitar formas de empoderamento. Em um curso que ensino aqui nos Estados Unidos, chamado Introduction to Brazilian Popular Culture, Paulo Freire é o elemento central para entender educação popular. No final da aula, fazemos uma miniaula dentro da visão freiriana para que os alunos possam ter uma experiência mais concreta de sua filosofia educacional. É interessante como as nossas interações promovem pensamentos críticos sobre a realidade que os estudantes americanos vivem. Nesta troca, eu (a professora) e os alunos nos tornamos colaboradores na construção do conhecimento.

A filosofia de Freire pode não ser perfeita; críticas podem existir. Eu mesma penso que entender a sociedade em termos de oprimidos e opressores é um modelo limitado e simplificado da nossa realidade. Entretanto, apagar Freire da nossa história é um ataque ao pensamento libertador. Questionar é importante. O debate é saudável. Só assim podemos avançar como sociedade; só assim a democracia é mantida.
Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia