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Denise M. Osborne
Denise M. Osborne
27/05/2019, às 08:22:28
Professores deixando o Brasil

Os professores universitários vivem uma onda de insegurança nas universidades. Os ataques e denúncias acontecem geralmente com professores percebidos como “de esquerda”. Talvez um dos casos mais conhecidos seja o da deputada estadual do PSL, Ana Caroline Campagnolo, que em 2017 processou sua ex-orientadora de mestrado, a professora Marlene de Fáveri (Universidade do Estado de Santa Catarina), alegando “perseguição ideológica e discriminação religiosa” por parte da professora. Depois de muita polêmica, a justiça considerou a acusação “improcedente”.

Enquanto Fáveri é feminista, Campagnolo apoia a escola sem partido e se diz cristã e conservadora. Se a professora e a estudante têm valores tão opostos, por que a estudante escolheu exatamente essa professora como sua orientadora de mestrado? Lembro-me da primeira vez em que conversei com meu orientador sobre minhas ideias de pesquisa. Eu queria fazer uma pesquisa envolvendo uma espécie de junção entre duas áreas: fonética acústica e linguística aplicada. Esse professor foi muito direto e disse: “Não faço esse tipo de pesquisa. Essa não é minha linha. Se quiser esse tipo de pesquisa, você terá que buscar outro professor para te orientar”. Confesso que fiquei surpresa com sua resposta, mas sua atitude me beneficiou. Decidi então seguir sua linha (decisão certa!). Ao que parece, essa conversa inicial franca entre Compagnolo e Fáveri nunca existiu.

Há outras situações piores, em que professores são ameaçados de morte. A Revista Exame publicou um artigo em março deste ano (2019) revelando que vários professores brasileiros têm feito pedidos de asilo para o Scholars at Risk por se sentirem inseguros. Essas ameaças aumentaram desde a eleição de Bolsonaro, de acordo com a revista. Enquanto que no ano passado apenas um professor entrou em contato com essa organização, este ano até março já eram 18. Os alvos dessas ameaças são acadêmicos que ou pesquisam ou são parte de grupos de minorias como LGBT, feministas e negros, dentre outros.

Duas professoras conhecidas estão agora exiladas nos Estados Unidos com a ajuda de instituições que apoiam escritores e pesquisadores dos direitos humanos. Uma delas é Débora Diniz, proeminente antropologista e professora da Universidade de Brasília. Diniz é uma defensora da descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Ela argumenta (através de pesquisas que fez) que o aborto é um problema da saúde brasileira. De-pois de receber várias ameaças de morte, Diniz entrou para um programa de proteção e está agora trabalhando na Brown University.

A outra professora exilada é a filósofa Márcia Tiburi que atuava na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e que já esteve no Fliaraxá em edições anteriores. Aliás, Tiburi está na programação do Fliaraxá para este ano de 2019 – presença agora incerta devido ao seu exílio. Autora de vários livros e ex-candidata a governadora do Rio de Janeiro pelo PT, Márcia Tiburi tem sido uma figura controvertida. Uma defensora das lutas das mulheres, Tiburi não tem medo de dar declarações fortes. Ela afirma por exemplo que o atual governo é um “governo de canalhas, de mafiosos”, que fazem o que bem entendem e não têm dignidade.

Por suas posições controvertidas, Tiburi recebe constantes ameaças de mortes. Ajudada pelo City of Asylum, uma organização dos Estados Unidos que ajuda escritores ameaçados no mundo todo, Márcia está agora passando três meses nos Estados Unidos, onde faz palestras em universidades americanas. Ela irá depois para a França.

A liberdade de cátedra (liberdade de ensinar) que garante ao professor trabalhar segundo suas convicções e expressar suas ideias e que faz parte da Constituição Federal de 1988, é fundamental para o desempenho da função de professor. Se queremos um ambiente onde ideias são discutidas de forma democrática, devemos dar espaço para todas as ideias incluindo aquelas que não apoiamos. Conservadores e liberais, petistas e bolsonaristas, cristãos e ateus, todos devem ter direito a seu espaço na discussão acadêmica. A diversidade (a verdadeira diversidade) é isso!
Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia