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Denise M. Osborne
Denise M. Osborne
O Que Dizemos
12/11/2019, às 11:28:22


“É só fazer cocô dia sim dia não” (9 de agosto de 2019), sugeriu Bolsonaro como forma de ajudar a diminuir a poluição ambiental quando uma repórter o perguntou sobre os efeitos da agropecuária para o meio ambiente. 
 
“Viver todo mundo igual na merda” (5 de agosto de 2019), foi a frase de Bolsonaro ao criticar jornalistas que falavam do desejo de igualdade para todos. 
 
“Tá com sua mãe” (5 de outubro de 2019), respondeu Bolsonaro a um cidadão que lhe fez a seguinte pergunta: “E o Queirós?”, em frente ao Palácio da Alvorada. 
 
“Vamos acabar com o cocô do Brasil. O cocô é essa raça de corrupto e de comunista” (14 de agosto de 2019), disse Bolsonaro a uma plateia entusiástica que o aplaudia aos gritos de “Mito!”, quando fez uma visita ao Piauí. 
 
“Daqueles governadores ‘de paraíba’, o pior é o do Maranhão” (19 de julho de 2019), disse Bolsonaro em uma conversa informal com o presidente da Casa Civil, sem perceber que estava sendo gravado.
 
A linguagem que usamos diz muito da nossa natureza. Ela pode revelar, por exemplo, aspectos do nosso ser que até nós mesmos desconhecemos. Como argumentava Jacques Lacan, a fala é reveladora do nosso inconsciente, e não é apenas um processo mental e cognitivo. 
 
Um exemplo interessante vem da psicolinguística, que usa “slip of the tongue” que pode ser traduzido como um lapso ou um deslize de linguagem para entender como ela funciona no nosso cérebro. Aliás, Freud já explorava os deslizes há anos como atos significativos que deveriam ser interpretados, e não apenas acidentes de linguagem.
 
Lembro-me que uma vez eu queria dizem em inglês “the boy is playing” (“o menino está brincando”) e acabei dizendo “the play is boying” (esta frase não é possível em inglês). A psicolinguística usaria esse exemplo de deslize para obter pistas de como o léxico é estruturado no cérebro. Veja que a troca de palavras foi entre um substantivo e um verbo – parece, portanto, não ter sido aleatória. Além disso, o morfema -ing permaneceu no mesmo lugar na frase, o que pode indicar que nós armazenamos os morfemas separados dos verbos e substantivos no nosso cérebro.
 
Para além do aspecto linguístico-cognitivo, o que dizemos têm um efeito na nossa relação com o outro e com o mundo. As nossas palavras podem interferir e até transformar o outro. As palavras são, portanto, ações em si. Através das nossas palavras, revelamos um pouco do que somos ao mundo. Por exemplo, com as minhas palavras posso escolher não desumanizar quem me desumaniza; posso escolher – a nem sempre fácil escolha – de optar pela integridade em todas as versões de mim mesma.
 
Não se deixar afetar pela normalização da violência verbal para não cair na armadilha da desumanização, passa a ser uma luta de resistência. Conectarmos com a nossa essência de bondade e generosidade para com o outro, passa a ser um ato de quebra da conformidade. A cada palavra temos a chance de estarmos mais próximos do que realmente importa!


 
 
Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia