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Mariana Candini Bastos
Mariana Candini Bastos
25/06/2018, às 09:48:25
O inferno somos nós
Esse é o título do livro da zen-budista Monja Coen e do historiador Leandro Karnal que será objeto de palestra logo no primeiro dia do FliAraxá. Talvez meus amigos leitores tenham estranhado a ausência dos meus textos neste periódico. É que entre março e abril fui instada a refletir sobre diversos aspectos da minha vida e ao longo desse processo de introspecção até os rumos dessa coluna foram reavaliados. Ter conhecido um pouco melhor dos preceitos budistas nessa fase foi decisivo e, por isso, reinauguro o espaço falando justamente dessa grata surpresa de recebermos Monja Coen em Araxá.

Não é de hoje que defendo que nós devemos ser a mudança que queremos ver no mundo, mas até pouquíssimo tempo atrás eu interpretava essa ideia de forma muito equivocada, talvez idealista demais. Nós não mudamos o mundo – e deixemos de ser tão prepotentes - nós não mudaremos nem mesmo nosso círculo social se não mudarmos a nós mesmos primeiro.

Voltando ao Fli: o título da palestra e do livro é uma alusão à clássica frase de Sartre “o inferno são os outros”. Sartre, um dos grandes expoentes do existencialismo de Kierkegaard, teorizou que estamos condenados a ser livres e isso se reflete no sentido que o homem dá à sua própria vida. Antes de tomarmos uma decisão não somos nada, mas vamos nos moldando a partir das nossas escolhas. O problema é que as nossas decisões e nossos projetos esbarram nas decisões e projetos dos outros ou, em outras palavras, nossa liberdade esbarra na liberdade alheia. Além disso, é a partir da nossa convivência em sociedade que percebemos que moldamos nossas escolhas pelas socialmente mais aceitas e vemos, pelos olhos dos outros, nossos erros e fraquezas. Daí serem eles o inferno.

Monja Coen e Leandro Karnal propõem um exercício diferente. Nossas escolhas provavelmente irão nos definir, mas também acrescentam elementos internos e externos como o medo, raiva e a violência entre alguns fatores que influenciarão nossa tomada de decisão ou serão consequência dela. Mas o mais importante é o método: amparados em fundamentos históricos e em preceitos budistas, a análise é como uma força centrípeta, isto é, ainda que haja fatores externos, é internamente que processaremos essas interferências e essas escolhas.

A base é desenvolvermos nosso autoconhecimento. Conhecer a si e aos demais pode ser a saída para enfrentarmos melhor as adversidades externas e internas, pois muda também a nossa reação instintiva em situações de medo ou violência. Logo, nessa linha, não são os outros que limitam nossa liberdade ou nossas escolhas, somos nós mesmos, de forma prudente e equilibrada, avaliando nossas reações, nossos excessos ou carências, acertos e erros.

Caso alguém prefira encontrar outro fundamento para a prática da autorreflexão, tomo também emprestada outra citação, dessa vez do psicanalista Sigmund Freud, que, a meu ver, leva ao mesmo resultado: “qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”.

Se nós fizéssemos mais essa pergunta ao invés de apontarmos os culpados óbvios para as nossas frustrações cotidianas, provavelmente chegaríamos à conclusão de que nada ou ninguém é totalmente responsável pelos infortúnios que nos queixamos, pois que há sempre que ser feita alguma mea-culpa, ainda que indireta. Por exemplo, temos a enorme tendência a fazermos projeções, sermos ansiosos, projetamos resultados no trabalho, criamos expectativas - boas ou ruins - nas pessoas que nos cercam, idealizamos situações e relações, tudo isso num tempo vindouro e incerto.

Hoje, pensamos no amanhã. E quando o amanhã chega e nossas projeções não correspondem ao que imaginamos restamos frustrados ou angustiados. Se cairmos na primeira hipótese, a da frustração, tendemos a ter mais medo ou mais raiva e, em qualquer caso, sermos ainda mais ansiosos.

Não importa se essa autorreflexão será amparada em filosofias budistas, de yoga, vedanta, em religiões cristãs, na combinação disso tudo ou em qualquer outra coisa. O que importa é o ato em si. É pararmos para pensar qual a nossa participação nas nossas frustrações e nos nossos problemas, quanto do que nos queixamos esteve nas nossas mãos (se é que tivemos algum controle) ou quanto do que almejamos, numa análise mais detida, é de fato fundamental para a nossa felicidade. A ideia é que a partir do autoconhecimento passemos a ser menos ansiosos e mais felizes. Palestra imperdível.
Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia