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Mariana Candini Bastos
Mariana Candini Bastos
03/04/2018, às 08:50:39
Ao tempo
“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

A coluna de hoje vem sendo escrita nas últimas três ou quatro semanas com muito cuidado e afeto, escolhendo e medindo cada palavra. Ela é sobre o nada, mas, ao mesmo tempo, é sobre tudo; tudo que realmente importa na vida. O texto acima é do Fernando Pessoa ou de uma das pessoas que ele era quando escrevia.

Meu texto de hoje é um tributo enquanto o tempo não escoa entre os meus dedos, diante da minha completa impotência em intervir no destino. É, portanto, uma homenagem quando ainda é possível fazê-la a uma amiga muito querida, uma jovem senhorinha, amiga dos meus avós, cujos filhos são amigos dos meus pais e os netos meus amigos desde a infância. É minha família por extensão. É um pessoal alegre e que sabe acolher, uma dessas famílias grandes, com muitos tios, filhos, primos, irmãos, muito diferente da minha família pequena.

Minha amiga, tão querida, tão generosa, tão sábia, tão sensata e justa, mesmo sem muito estudo, é o reflexo do ser humano que eu gostaria de ser; eu olho para os olhos já enrugados, mas o sorriso continua fácil. Perto dela sou imediatamente tomada por uma calma absoluta inexplicável. Ela é agregadora, bondosa, humilde, caridosa, simples e de uma temperança tão rara que me espanta e me comove... uma senhora virtuosa com quem eu tenho a honra e o prazer de conviver e tentar aprender com seus exemplos.

O tempo que nos liga, às vezes também nos separa. Mas o aquilo que realmente nos liga, os laços de afeto que criamos, não podem ser desfeitos com essas peças que o próprio tempo e a vida nos pregam, muitas vezes num silêncio de estourar os tímpanos, subitamente. Quando damos pela coisa, o tempo passou, alguma coisa no tabuleiro do jogo da vida se altera e, quando os olhos se fecham, há que se deixar o coração aberto.

No caso dessa jovem de quase um século de vida, várias vezes me pego divagando, tentando criar um plano para trapacear com tempo porque me custa pensar que o peso da idade já faz sua coluna arquear, o ar escasso e os olhos tão cansados já não me reconhecem mais. Nisso, pelo menos, há um conforto. Eu sei que se o timbre da minha voz não falhar, ela não verá no meu semblante minha tristeza despertada ou a angústia da impotência em ajudá-la enquanto as horas correm.

Certas pessoas passarão por essa vida e deixarão um legado, têm essa importância de nos marcarem para sempre e semeiam em nossos corações e nos alheios uma paz inebriante, um sentimento de “pertencimento” a alguma coisa maior, nos inspiram com exemplos; certas pessoas simplesmente têm um dom, ou um propósito de vida maior que a própria vida em si.

Quando o tempo chega, ou passa, e começa a levar o ímpeto de viver dessas pessoas tão singulares, como a minha velhinha, com uma história tão linda, outro conflito me atormenta e literalmente me tira o sono e calma: é a certeza de que mesmo se eu vivesse o dobro do tempo que ela viverá, mesmo assim, eu não chegarei ao fim da minha vida, na minha hora de entrar na barca, tendo construído o mesmo legado de humildade, generosidade e resignação. “Eu não sou nada, nunca serei nada”, repete o tempo a cada tique e taque do relógio no silêncio da madrugada.

Trocaria, portanto, de lugar e, desde já, se essa nossa vida aceitasse o acordo. Mas não tem negociação, não adianta querer parar o tempo, voltar no tempo ou alterar qualquer das variáveis dessa complexa equação, porque o resultado é sempre o mesmo; é apenas uma luta inútil contra moinhos de vento.

O tempo que nos separa, felizmente, é também o tempo que nos une e através do qual a vida se multiplica e aí sim, “guardamos todos os sonhos do mundo”, como se pudéssemos passar a experiência como um tesouro às novas gerações. Enquanto eu me pego fazendo paradoxos com o tempo que passa, como tormenta para uns ou brisa fresca de esperança para outros, percebo certo equilíbrio nisso tudo.

Enquanto escrevo essa coluna, justamente nessa semana, minha amiga receberá em seus braços o sexto bisneto, com meus mais sinceros votos de que ele chegue saudável e a contagie com sua juventude.

Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia