Clarim - Livro
Logo
Araxá / MG - , -
Clarim no WhatsApp (34) 98893-8381
Menu
EDITORIAL - No balanço do Fliaraxá
01/12/2017, às 10:36:15
A sexta edição do Festival Literário de Araxá (Fliaraxá) pode ser considerada um “divisor de águas” em relação às cinco anteriores. Nem tanto pelo conteúdo, muito mais pelo tamanho da produção e, principalmente, por ter sido realizada no complexo do Barreiro e com expressivo público. Por ser um importante festival para a cidade, especialmente na valorização cultural com a formação de novos leitores, mas também na promoção turística e entretenimento para a população, corre-se o risco de superestimarem os resultados e não considerar os erros que devem servir para aprimorar a sua realização a cada ano.

Em termos de estrutura, a deste ano foi bem maior e melhor distribuída em função dos espaços oferecidos pelas áreas externa e interna do Grande Hotel. A comunicação entre o Salão Minas Gerais e demais salas e a tenda da livraria principal com a estação de autógrafos através da cobertura da escadaria, que não só protegeu o público da chuva como integrou esses espaços, foi uma boa ideia. Assim como valeu agregar a gastronomia com um palco para as apresentações, apesar do espaço reservado já ter ficado pequeno. Muito comprido, porém mais estreito na largura, esse espaço entre o palco e os estandes espremia as pessoas que entravam no festival em busca das atrações literárias com as que queriam estar nesta área de entretenimento. Também foram poucos os lugares para quem quis se acomodar nessa área. O que não tirou o brilho da iniciativa que agradou em cheio os araxaenses, como deve ser. Nada que não dê para repensar na próxima edição, porque as apresentações foram muito boas, sejam as de fora com Pato Fu e João Donato como expoentes, como as de Araxá que não deixaram a desejar, como com Vinith, Us Moura e Escola Municipal de Música.

Já a novidade do chamado “Diálogos em Espiral”, que se constituiu num palco redondo montado no meio do Salão Minas Gerais rodeado pelas cadeiras do público, não funcionou porque dificultou o entendimento. Com o salão lotado, a maioria das pessoas ou não via direito os convidados ou não os escutava, o som chegava muito baixo nas últimas fileiras e quem sentou atrás dos pilares que sustentavam a iluminação teve dificuldade para acompanhar as discussões. Ainda mais quando os convidados lusófonos usavam a palavra, pois o português deles é mais corrido e um pouco diferente do nosso. Assim como nas oficinas infantis, quando as crianças não entendiam muito a língua desses oficineiros. Referenciar José Saramago e Mia Couto foi uma escolha que teve o seu propósito, porém exaltar os talentos brasileiros que são tantos agrada mais o público. No último painel, a brasileira Bruna Lombardi brilhou muito mais pelo sentido das suas palavras do que a sua beleza. Já Mia praticamente repetiu o que disse no primeiro encontro, embora os temas fossem diferentes. Houve pelo menos um painel que deixou o público frustrado, por contar com quatro convidados que fizeram a sua exposição sobre o tema e, logo em seguida, teve que ser encerrado logo em função do tempo. Contudo, dentro do espírito da crítica construtiva, valeu pelas presenças.

A elaboração e divulgação da programação, com as principais peças muito confusas, tanto a impressa (livreto) como a online (site) e, ainda mais, com as mudanças não previstas de salas e horários, deixaram a desejar e contrariam as palavras do idealizador e curador do evento, Afonso Borges, de que é realizado para a população de Araxá. No interior, não dá para confiar só na divulgação do site, tanto que pouca gente fez o credenciamento pelo Sympla e a própria produção teve que imprimi-lo e distribuir para quem estava na longa fila, como na apresentação teatral no Cine Tiradentes. Também não funcionou para a entrada no último “Diálogos em Espiral”, porque quem participou do anterior continuou sentado nos melhores lugares e quem fez o credenciamento antecipado entrou num salão já quase cheio. Os horários de início e fim das oficinas foram confundidos e teve gente que chegou ao final achando que era o início. O aparato para orientação ao público foi grande, mas não funcionou a contento em várias oportunidades, muita gente perdida.

As atrações de Araxá que corresponderam a uns 50% de todas as apresentadas no festival não foram devidamente valorizadas, a começar com o pessoal da cidade mal informado ou desinformado sobre quem estaria lá, quando e onde, para prestigiar como de hábito. Com tantas salas internas, como a boate do Grande Hotel (Salão Ouro Preto), as programações locais ficaram praticamente restritas à Sala Café Literário que tinha poucos lugares, montada junto à Livraria Nobel. Houve encontro com pessoas sentadas no chão, em pé ou acomodadas em bancos sem encosto, além das que foram embora por causa da falta de lugares nesse espaço montado exclusivamente para as atrações locais. Na programação, o pessoal de Araxá concorria com as grandes atrações de fora dividindo o público local que também gosta de ouvir os conterrâneos. O que inclusive gerou mudanças em cima da hora em função das reclamações, porém apesar da boa intenção não foram devidamente informadas.

As visitas programadas junto a escolas levaram muitos alunos ao festival. Mas, grande parte da população em geral não sabia que havia transporte gratuito de hora em hora para o Barreiro. Não houve divulgação suficiente e os ônibus partiam vazios, devem ter contado apenas com a mídia espontânea. Outro problema é que a população dos bairros mais distantes tinha que pagar a passagem de coletivo até o Centro para depois seguir para o Barreiro, porque o ônibus disponibilizado não era circular. Se o festival tinha mesmo a população local como público alvo, porque fizeram uma mídia tão ínfima junto aos veículos de comunicação da cidade ou mesmo nada? Os gastos com peças como cartazes, panfletos, livretos e placas foram evidentes, mas a questão é que apenas informam o que está escrito ali, não são veículos de comunicação. Ao ser questionada sobre a irrelevância da mídia na imprensa de Araxá, inclusive menor do que a realizada nas edições anteriores que já era pequena, a produção justificou que também tinha que contemplar cidades como Uberaba, Uberlândia, Belo Horizonte e interior de São Paulo. “Ou seja, prestigiamos sim a mídia local, mas menos do que gostaríamos. Um projeto tão grande envolve custos altos e para atender a todos, precisamos fazer escolhas, não necessariamente as que mais nos agradam”, informou a produção.

Realmente não dá para compreender, ainda mais se a grande parte do festival contou com araxaenses em todos os sentidos, como atrações e público. Que em 2018 possam repetir o que deu certo e corrigir o que falta para que o Fliaraxá seja feito principalmente para a cidade, como é de fato o intuito do maior patrocinador do evento via Lei Rouanet de Incentivo à Cultura. Afinal, todos concordam que é um privilégio contar com o festival que fomenta culturalmente e turisticamente Araxá, porém ainda pode ser muito melhor.

Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia