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EDITORIAL - Percepção coletiva
12/12/2017, às 10:27:03

É preciso respeitar as decisões de governo, quando não se pode democraticamente revertê-las e estão acobertadas pela atribuição e competência do cargo, obviamente ocupado por quem foi eleito justamente para conduzir a cidade. Inclusive deve-se partir do princípio da confiança e boa intenção do governante em fazer o melhor em busca de satisfazer os anseios da população em geral. Por outro lado, o governante para errar menos deve não só facilitar como perseguir a convivência popular, para que por si próprio sinta o direcionamento natural da maioria, de forma a complementar a visão de dentro com a de fora do governo, especialmente nos municípios onde esse contato é bem mais próximo.

As informações filtradas pelo staff não estão isentas da influência da dependência que seus integrantes têm em relação ao chefe, muito pelo contrário. Os ocupantes de cargos de confiança que são de livre nomeação e exoneração pelo chefe do Executivo, mesmo os mais técnicos, costumam evitar os embates e contrariedades a fim de criar um ambiente desejado e confortável no exercício da função. Uma situação presente conforme o posicionamento do próprio governante no estabelecimento dessa sinergia, se mais ou menos aberto às críticas e sugestões. Um prefeito muito autoconfiante pode não saber ouvir a equipe convenientemente e, por outro lado, se for muito indeciso torna-se extremamente influenciável.

Existe um equilíbrio a ser orientado no sentido de compartilhar opiniões e descentralizar o funcionamento da administração, mediado pelo respeito à vontade dos governados, porque é sábio estar respaldado pela maioria do povo. A unanimidade é impossível dada à diversidade de uma comunidade, porém pode e deve ser vislumbrada. Em Araxá, uma cidade pequena, não é tão difícil para o governante obter o “feeling” de sua atuação. Esse “feedback” acontece de várias formas, no corpo a corpo, nas relações institucionais, pela imprensa e também via redes sociais, onde costuma ser ecoado dado aos seus efeitos multiplicadores e especialmente tendenciosos. As intervenções executadas na av. Antônio Carlos, Centro, ilustram o que acontece quando existe uma avaliação política superficial sobre ações que afetam o dia a dia da população como um todo e que esbarram na preconcepção da consciência coletiva.

Na perspectiva sociológica do importante teórico Émile Durkheim, “o que as pessoas sentem, pensam ou fazem independente de suas vontades individuais, é um comportamento estabelecido pela sociedade. Não é algo que seja imposto especificamente a alguém, é algo que já estava lá antes e que continua depois e que não dá margem a escolhas”. Sob essa perspectiva de Durkheim, as várias intervenções no conjunto da avenida e praças do Centro histórico de Araxá se constituíram num “fato social”, ou seja, “exterior ao indivíduo e coercitivo”. Trata-se de um ícone, um espaço emblemático para a coletividade.

No governo do ex-prefeito Antônio Leonardo Lemos Oliveira, o mercado municipal situado no coração da cidade tinha se tornado um antro dominado pela promiscuidade e foi um importante desafio demoli-lo, porque não era possível revitalizar o antigo prédio de pé direito baixo, pouca luz natural e ambiente abafado, mesmo assim houve polêmica. A sua demolição efetivada no início do último ano da gestão de Antônio Leonardo (2008) aconteceu mediante a expectativa sobre a nova destinação para aquela área tão nobre de 2 mil m² localizada na praça Cel. Adolpho e também a construção de um novo mercado municipal com as suas características originais. Há dez anos, era intenção do ex-prefeito não só desafogar o sistema viário, como preservar o Centro histórico da cidade, tanto que enviou um projeto de lei à Câmara Municipal que dava à prefeitura o direito de compra antecipada de sete imóveis centrais: na praça Cel. Adolpho (65) e rua Alexandre Gondim (112) devido ao valor histórico, cultural e ambiental, além dos números 273 e 279 na rua Capitão José Porfírio, 202 e 190 da rua Carvalho Lopes e 278 da rua Cassiano Lemos para criar nova e melhor alternativa de trânsito naquela região.

Os “representantes do povo” temeram o desgaste político dessas desapropriações e não aprovaram o projeto de lei. O governo de Antônio Leonardo acabou sem que houvesse uma definição sobre a ocupação da área do antigo mercado. A nova gestão à época, do ex-prefeito Jeová Moreira da Costa, após dois anos da demolição do mercado decidiu pela construção do Teatro Municipal e revitalização da av. Antônio Carlos, com o fechamento das interligações entre as ruas Calimério Guimarães e Capitão José Porfírio e Dom José Gaspar e Santos Dumont, além da implantação do calçadão na rua Presidente Olegário Maciel. Para tanto, o então prefeito enfrentou sistemática oposição política e ainda um processo judicial impetrado pelo Ministério Público, o que inclusive motivou a abertura de uma comissão processante pela Câmara Municipal. Apesar de tudo, as mudanças propostas foram aprovadas por boa parte da população, tanto que Jeová foi reeleito para o cargo em 2012 com expressiva votação na região central.

A imposição desse estigma social perdura até os dias de hoje, o que está demonstrado na reação da população diante das novas intervenções nessa área. Para reverter esse negativo processo coletivo, bastava complementar o que já tinha sido feito e não devidamente concluído. O fechamento das vias com as rampas elevadas possibilitou a reeducação no trânsito, porque os motoristas e pedestres passaram a respeitar as faixas, não só naquele trecho da cidade. O trânsito que estava impraticável melhorou com a retirada dos semáforos que existiam na esquina do Banco do Brasil e na lateral da igreja matriz e o desvio de parte do tráfego por causa do fechamento das ruas - que agora serão reabertas. Por causa desse histórico, o sofrimento antecipado da população, expressado principalmente nas redes sociais e, quiçá, as opiniões contrárias às novas intervenções sejam infundadas.

Também bastava retirar os tocos de postes deixados nas calçadas apesar da fiação subterrânea; refazer o piso e meio-fio já danificados em tão poucos anos em razão da falta de qualidade do acabamento; mudar o ponto de táxi para um local melhor; criar trilhas para atravessar a av. Antônio Carlos e sinalizar descentralizando as passagens de pedestres; colocar os bancos, lixeiras, “cachepots” e complementar o paisagismo criado pelo alinhamento dos paus-mulato com o plantio de árvores menores e apropriadas para o perímetro urbano; manter adequadamente as áreas de gramado. Pela proposta do projeto anterior, também seria criado um memorial no entorno da fonte que, por enquanto, só tem reforçado o estigma já que apesar de ser tão apreciada e relevante para aquela paisagem quase nunca é ligada, quanto mais cuidada.

Parte das devidas providências foi tomada, porém tornou-se insignificante por causa das intervenções que descaracterizaram novamente o espaço. Principalmente, a implantação do pergolado que utiliza toras de grandes dimensões e ainda colocadas muito juntas, impactando de forma inadequada o restante da paisagem. Além do mais, é puro saudosismo achar que tem gente que vai se dirigir para aquela região tão central e tumultuada pelo intenso tráfego de veículos para apreciar o conforto do pergolado. A grande maioria é de apressados passantes que foi aos bancos, ao comércio em geral, sem tempo para paradas. Da forma que está também existe a preocupação da praça atrair os desocupados, moradores de rua e até perder um pouco da sua segurança.

Enfim, além do respeito, a torcida para que essas suposições negativas quanto ao resultado das intervenções não se concretizem.
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Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia