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EDITORIAL - Depois do Carnaval
22/02/2018, às 08:12:10

O jargão sempre é o mesmo, o ano começa depois do Carnaval. E a maior festa popular do país foi como um prenúncio de mudanças em 2018, especialmente de valores. Para quem gosta, o Carnaval deve ser mesmo de alegria, de extravasar as emoções fazendo festa, de bom humor inclusive diante das mazelas da vida, de resgate histórico e cultural e também de protesto. Já para quem não curte a festa, podem ser dias de descanso, de retiro espiritual, de momentos em família, de tolerância com a animação dos outros, de expectador e apenas mais um feriado prolongado dentre tantos deste país que realmente não tem sido muito afeto ao trabalho de forma geral.

O nome já diz tudo “escola”, porque em torno do samba que é um estilo musical e de dança, tipicamente brasileiros, as comunidades se reúnem para ensinar e aprender. O trabalho nas oficinas no decorrer de todo o ano abrange não só a cultura com a formação de músicos, dançarinos e artistas como também outras áreas profissionais, como as engenharias, na confecção das fantasias, adereços e carros alegóricos. Essa convivência comunitária é extremamente rica e saudável, passando de geração em geração e que se expressa com toda a sua pujança no período carnavalesco. Em algum momento dessa história, o abuso com a própria saúde, a sensualização de tudo, o desrespeito com o outro, o negócio e a mídia indiscriminados passaram a se sobressair e deturpar esse conceito de escola da comunidade. Mas, o Carnaval deste ano demonstrou que essa banalização já não é mais o foco. Até as vinhetas televisivas e a cobertura da imprensa deixaram de explorar o corpo e voltaram a valorizar a fantasia e, como não poderia ser diferente, destacar o clamor da população expressado através dos desfiles carnavalescos que deram importante tom à indignação social.

O melhor é constatar que as sutilezas da mídia de massa em ignorar tamanha insatisfação popular não surtiram o efeito pretendido e as escolas de samba campeãs do maior Carnaval do planeta foram as que deram voz ao povo brasileiro neste ano, a Beija-flor de Nilópolis e a Paraíso do Tuiuti. A vice-campeã desfilou primeiro apresentando no sambódromo o “Vampiro Neoliberalista” que é a cara do presidente, o nariz de palhaço dos manipulados pelos políticos e rasgando a Carteira de Trabalho em menção à reforma trabalhista que atende a classe patronal em detrimento dos trabalhadores. O enredo da Tuiuti questiona com o refrão “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?” e completa: “Não sou escravo de nenhum senhor / Meu Paraíso é meu bastião / Meu Tuiuti o quilombo da favela / É sentinela da libertação”. Também para o mundo inteiro ver, a Beija-flor foi perfeita ao criticar a conjuntura brasileira tomada pela corrupção e o preconceito com o samba-enredo “Monstro É Aquele Que Não Sabe Amar (Os Filhos Abandonados da Pátria Que Os Pariu)”, arrastando a multidão presente no sambódromo. “Ganância veste terno e gravata / Onde a esperança sucumbiu / Vejo a liberdade aprisionada / Teu livro eu não sei ler, brasil! (assim mesmo com minúscula)”, diz a composição. A escola arremata o samba-enredo com a esperança do amor: “Oh pátria amada, por onde andarás? / Seus filhos já não aguentam mais! / Você que não soube cuidar / Você que negou o amor / Vem aprender na Beija-flor”.

Em Araxá, o Carnaval deste ano também deu o seu recado justamente por não acontecer como anteriormente. Se as chamadas “escolas de samba” da cidade não resgatarem o seu sentido original, de comunidade, estão mesmo fadadas a desaparecer. Afinal, não dá mais para aguardar o ano inteiro de braços cruzados, sem qualquer convivência comunitária em suas regiões carentes do real objetivo da “escola de samba”, para apenas fazer improvisada festa ao chegar o Carnaval, sem relevância para a grande maioria da população local. Nos dois últimos carnavais de rua de Araxá, quase todo o dinheiro empregado (público e privado) destinou-se à colocação da estrutura que atrapalhou o trânsito e o comércio numa avenida tão central como a Getúlio Vargas para poucas horas de infrutífera diversão. É preciso repensar esse investimento que inclusive deve existir numa cidade com potencial turístico, mas tem que ser bem empregado. Por outro lado, a iniciativa dos blocos carnavalescos foi plena de sucesso, porque reuniram as famílias como ponto de encontro e lazer para todas as idades. E acabaram se constituindo numa atração que pode crescer e atrair mais gente nos próximos carnavais, inclusive o pessoal de fora.

Passado o Carnaval, é guardar a fantasia e cair na realidade de um país que tem tudo para dar certo, porém é preciso ir ao fundo do poço em busca do que resta de dignidade, moral e respeito ao próximo. O povo brasileiro tem sido vítima da sua própria cultura corrupta, a que dá um jeitinho em tudo e não respeita qualquer direito dos outros, nem mesmo uma simples fila. O sofrimento esculpe e transforma, pois é sentindo na própria pele as dificuldades advindas de tanta injustiça social que o povo a de buscar o remédio nas urnas, apesar de ser longo o tratamento.

Foto: Celso Flávio
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