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EDITORIAL - Questão de autoestima
05/04/2018, às 08:04:00

As ações pontuais se perdem em meio à falta de efetivas políticas públicas, como tem ocorrido em relação à cultura e ao turismo de Araxá. O que se vê são ações isoladas, como se pudessem justificar todo um contexto. Quando é preciso um conjunto de procedimentos que possa realmente rever o retrocesso que o município tem vivenciado nessas duas áreas tão fundamentais para o seu desenvolvimento sustentável. Quando um município se apropria de suas raízes, preservando as suas referências locais e conservando o seu patrimônio, fortalece a sua identidade, o que incrementa a vocação turística.

“A identidade de uma cidade a torna singular em vários aspectos e esses podem, por sua vez, funcionar como atrativos turísticos”, citação de Kevin Lynch no diagnóstico da Política de Patrimônio Cultural de Araxá elaborado pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG), em 2013. Mas apesar das conclusões e sugestões desse estudo para o conhecimento e valorização do patrimônio cultural local, houve a descontinuidade dessas políticas públicas nos últimos cinco anos. Tanto é que a pontuação de Araxá no programa de ICMS Cultural do Estado que vinha crescendo de 2008 a 2013 quando chegou a 17 pontos e totalizou quase R$ 1 milhão de repasses anuais para o município neste período zerou em 2014, foi de 5,72 em 2015, tornou a zerar em 2016 e, em 2017, de apenas 1,80. Esses números refletem a desatenção do poder público municipal com a cultura e o turismo da cidade como um todo, que até então vinham sendo considerados importantes para a autoestima da população, além do incremento da economia local.

Nesta gestão, a prefeitura deu posse aos conselhos municipais de Cultura em dezembro de 2016 e, por duas vezes, ao do Patrimônio Cultural de Araxá (Codempac), em 09/03/2015 e 27/07/2017. Uma medida necessária para que pudesse integrar os sistemas nacional e estadual de cultura e inclusive reivindicar recursos, como para a reforma do Museu Histórico Dona Beja. Aliás, a aquisição pela prefeitura do prédio que abriga o museu e agora o seu empenho para que seja revitalizado e reaberto é o grande destaque da sua atuação nessa área. No entanto, essa atuação não pode estar resumida nessa ação, dentre tantas outras que deveriam acontecer como sugere o MPMG. Mas a conveniência ainda prevalece em detrimento da proteção e preservação dos bens culturais, como no caso do imóvel que abrigou a antiga Pensão Tormin e, documentalmente, pertenceu à Dona Beja ainda no século XIX. Pois assim que a Justiça determinou a sua preservação até a apuração do seu valor histórico, o Codempac reuniu-se para decidir pela sua demolição, alegando estar descaracterizado e ignorando uma ficha de inventário feita em 1999. Embora todos saibam do seu valor histórico, não só arquitetônico mesmo com essa intervenção feita em 1907, como imaterial.

Com que autoridade moral e competência o Codempac despreza toda essa memória documentada pela própria Fundação Cultural Calmon Barreto (FCCB) para agora renegá-la? O que se reflete é a falta de conhecimento sobre a ampliação do conceito de bem cultural na atualidade, como aponta a citação de Marcos Paulo de Souza Miranda no estudo do MPMG: “Toda cidade seja antiga ou nova, tem importância histórica e cultural, sendo que a partir do momento em que ela passa a existir começa a configuração da história daquela comunidade”. Qualquer cidadão da cidade, mesmo um turista, pode ver a importância daquela edificação situada entre os casarões do Museu Histórico de Araxá e da antiga Câmara Municipal, seja como antiga residência de Dona Beja, seja na composição da paisagem urbana do Centro histórico, como também nas lembranças da convivência social estabelecida durante as décadas em que abrigou a pensão até o final do século XX. Por si só, mesmo descaracterizada como alega o Codempac, mesmo em ruínas como têm insistido em deixá-la para cair, remete a um contexto histórico inquestionável.

“Os efeitos benéficos do turismo estão intimamente relacionados a uma gestão de qualidade, na qual o poder público assume o compromisso de elaborar um planejamento de controle para a atividade turística. Essa ao ser bem gerida traz aos moradores vantagens econômicas como, por exemplo, a criação de empregos e movimentação da renda local e, culturais, pois possibilita o enriquecimento cultural, propiciado pelo contato entre os mais diversos tipos de pessoas e a (re) apropriação da cidade pelos cidadãos renovando o espírito cívico e orgulho pelo lugar”, diz a citação de Maria Cristina Rocha Simão referenciada no estudo do MPMG. Enquanto a cidade reconhece o Parque do Cristo restaurado também como uma importante atração turística da cidade, por outro lado a atividade continua desarticulada e sem incentivos relevantes. Recentemente, foi necessário um movimento para que o poder público se sensibilizasse quanto à importância da Copa Internacional de Mountain Bike para Araxá. A Páscoa Iluminada que repercute nacionalmente numa grande inciativa para tornar Araxá um procurado destino nesta época, não contou com o apoio da prefeitura este ano. Outro fato é que a prefeitura optou por deixar de integrar o Circuito da Canastra, do qual era cidade sede. A própria apresentação de Araxá caiu vertiginosamente no conceito de cidade limpa. O grande potencial para o turismo cultural se consolida a partir do devido tratamento da cidade para com os seus cidadãos e bens naturais, imóveis e imateriais. Uma cidade aprazível para a população é da mesma forma para os seus visitantes e está faltando esse bem-querer.

A vontade política se expressa no dia a dia da comunidade e, por enquanto, constata-se que não está voltada para o desenvolvimento cultural e turístico. É o que se vislumbra no afã do poder público em desapropriar onze imóveis para construir um viaduto, enquanto o Centro histórico se descaracteriza e continua perdendo os bens dignos de preservação. Um desses casarões apontados no estudo como patrimônios históricos e culturais poderia ser desapropriado para abrigar a biblioteca municipal e o arquivo público por exemplo, dentre tantas outras unidades que compõem a administração municipal. “O conceito de patrimônio arquitetônico urbano relaciona-se como a compreensão da paisagem urbana, do conjunto. Este conceito valoriza o processo de formação da cidade, compreende que esta resulta de uma série de práticas que objetivam a constituição do espaço. Considerar este conceito significa compreender a necessidade de se preservar o equilíbrio da paisagem”, citação de Leonardo Barci Castriota constante no trabalho do MPMG.

Sem dúvida, o conceito de patrimônio cultural estende-se à memória social da coletividade e cabe ao poder público defendê-lo e preservá-lo, buscando os benefícios advindos da implementação das políticas municipais de cultura e turismo. O empobrecimento desse patrimônio significa a perda da memória coletiva, fundamental para a autoestima de um povo que busca a qualidade de vida. Araxá tem recursos para estimular o seu desenvolvimento cultural e turístico, mas tem faltado vontade política.
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Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia