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EDITORIAL - Pontual ou não
18/05/2018, às 10:21:59

Como devemos tratar a tentativa de homicídio contra a professora cometida por uma aluna de apenas 13 anos dentro da sala de aula de uma escola da rede municipal de ensino? Como um caso pontual porque nunca houve outro de tal gravidade em Araxá, ou seja, exceção à regra já que a atenção ao adolescente no município não deixa a desejar. Ou como um sinal de alerta para vermos que o problema da violência “contra a escola, na escola e da escola” existe e está inserido num contexto muito maior que atinge toda a sociedade, assim como também é da sua responsabilidade. Pontual ou não, casos como esse chocam a população sensibilizando a todos para a necessidade de detectar ou prevenir os problemas que afetam segmentos vulneráveis como o das crianças e adolescentes.

O ponto de partida deve ser o da família e, a primeira impressão que se tem é a de que uma menina capaz de confessar não só a autoria como a intenção de matar a professora pertença a um lar desiquilibrado, carente de bens materiais e de valores morais, onde faltam bons exemplos e educação. Mas apesar dessa adolescente estar numa família de menor poder aquisitivo, a falta de dinheiro não é a raiz do problema. Se fosse, esses graves casos seriam muito comuns e, não só em Araxá, porque a distribuição de renda neste país é extremamente injusta, com a riqueza concentrada em menos de 10% da população. Sabemos que esses desajustes atingem crianças e adolescentes de todas as camadas sociais, porém cuidar para que as famílias tenham pelo menos dignidade e o básico para viver em sociedade com saúde, educação e em paz é essencial para não só prevenir a violência como mudar o destino de gerações.

Mesmo em Araxá, onde o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é considerado bom, a renda per capta elevada e a economia como a 12ª do Estado dentre mais de 850 municípios mineiros, existem situações abomináveis. Como as de famílias morando em áreas invadidas às margens de córregos sem infraestrutura básica e também em barracos construídos na periferia sem portas, sem banheiro, sem dignas condições de vida. Como as de pessoas à espera de um atendimento à saúde porque precisam de exames e tratamentos especializados e cirúrgicos e as de crianças, adolescentes e jovens sem estudar, sem trabalhar, sem fazer nada. Embora seja utópico esperar que esses problemas sejam totalmente extirpados em Araxá, pelo menos é possível torná-los de fato pontuais, que sejam raros.

Dos cerca de 12 mil pré e adolescentes de Araxá, quantos estão em condições ruins de moradia, fora da escola ou ociosos no contra turno das aulas, sem oportunidade de estágio, do primeiro emprego, de praticar esportes, de aprender outra língua, tocar um instrumento musical, ter acesso à cultura de forma geral e mesmo ao lazer? Se existe esse diagnóstico, quantos realmente estão demandando essa maior atenção social e por que não conhecer essa realidade e investir fortemente para mudá-la? Da mesma forma em relação aos pais e responsáveis, pois quantos estão desempregados, entregues às bebidas e outras drogas, envolvidos com a criminalidade, não suprem o lar, não se importam com o destino dos tutelados e ainda são violentos? Existe esse levantamento? Se sim, a sociedade ainda não o conhece. Nem o que está sendo feito quanto a esses desfavorecidos que precisam de todo o tipo de suporte.

Se tudo está controlado e os problemas estão sendo acudidos, momentos como esse despertam para a necessidade de se propagar o bem, de mostrar para a população que o caso é mesmo pontual e o que vem sendo feito a favor da grande maioria desses menores, não só na área educacional como na assistencial, na cultural, na esportiva. É preciso mostrar que os centros comunitários e outros equipamentos públicos vêm sendo bem utilizados apesar de um caso ou outro, como o dessa escola onde o ginásio ainda precisa ser reformado junto com a parte desativada da creche ou os da Praça da Juventude e do Buracanã que ainda denotam o descaso ao invés de servi-los.

A menor foi encaminhada para o Centro de Reeducação do Adolescente (Cerad) por ato infracional análogo à tentativa de homicídio, onde pode ficar em regime de internação por uns seis meses ou até três anos conforme a medida a ser aplicada pela Justiça. Depois desse tempo, como essa adolescente retornará ao convívio social? A sua família se for de fato desestruturada estará numa situação diferente? Ela contará com um espaço adequado de convivência e com reais oportunidades de se reeducar caso permaneça internada? Quantos menores encaminhados para o Cerad de Araxá têm se redimido e quantos reincidem em graves infrações?

Casos como esse, pontuais ou não, realmente servem para refletirmos, termos parâmetros, nos inteirarmos de fato das necessárias ações para evitá-los ou para contar como estamos evoluindo apesar dos pesares, como estamos planejando e o que estamos fazendo para essas gerações.
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Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia