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EDITORIAL - A história conta
02/10/2018, às 07:47:36
Nos anos 1960, a intelectualidade brasileira conduzia um movimento anti-imperialista por causa do domínio americano que ameaçava não só o país como todo o mundo. À época, no cenário da chamada guerra fria, em um dos polos estava a União Soviética comunista e, em outro, os EUA capitalista, disputando a hegemonia do planeta com a subjugação de países mais pobres e minorias. Cuba se revolta com essa dominação e abole o julgo americano através da revolução popular de 1959 que tornou o país socialista e estabeleceu a ditatura de Fidel Castro. O que acende o sinal de alerta nos EUA que passam a temer que a mesma revolta contra o capitalismo deflagrada em Cuba ocorresse no Brasil que estava em franca ascensão consumista. Assim começa a ser armado o Golpe Militar de 1964, inteligentemente criado com a aliança entre os EUA e a oposição política ao instável governo brasileiro.

O bode expiatório foi o já combatido comunismo, fazendo com que o foco da luta popular que era justamente o imperialismo americano se desviasse para este “bicho papão”. O presidente Jânio Quadros após poucos meses na presidência do país renunciou mediante forte pressão. O vice-presidente João Goulart (Jango) assumiu o comando do país e, em março de 1964, quando determina a reforma agrária e a nacionalização das refinarias estrangeiras de petróleo, acontece o Golpe Militar amparado pelos EUA. A Constituição de 1967 promulgada sob o manto do Regime Militar suprimia o voto direto ao Executivo, instituía a censura prévia aos meios de comunicação e restringia o direito de associação, dentre outras liberdades fundamentais suspensas no período.

Depois de 21 anos de repressão política, o povo não mais suportava a falta de liberdade de expressão, a censura e opressão com pena de morte para civis, a exploração estrangeira, a dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a falta de transparência com os recursos públicos, a inflação galopante de 80% ao mês e, finalmente, se rebelou contra o regime. A redemocratização acontece em 1985, com a ascensão indireta do presidente José Sarney à presidência, o primeiro civil depois de uma sucessão de militares escolhidos entre si através de um conselho. Para essa transição, foi formada a Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a democrática Constituição de 1988 que está em vigência há 30 anos, embora ainda careça de muita regulamentação e venha sendo emendada pelos políticos conforme os próprios interesses. Sarney cumpriu a promessa de conservar o Serviço Nacional de Informações e não processar nenhum envolvido em torturas e desvios financeiros e esse esquema nunca foi extirpado da política brasileira, mesmo com a anistia.

As primeiras eleições presidenciais livres e diretas no Brasil ocorreram em 1989, quando Fernando Collor de Mello filiado ao inexpressivo Partido da Reconstrução Nacional (PRN) foi eleito com o discurso de acabar com os marajás. Naquele tempo, os marajás eram justamente os contemplados com astronômicas aposentadorias, benefícios, cargos em todas as esferas de poder da República. Porém, além de não agir conforme esse discurso populista, Collor se apropriou da poupança da grande maioria dos brasileiros e abriu o mercado brasileiro para a tecnologia da informação. Em meio a isso e às acusações de corrupção e financiamento ilegal de campanha eleitoral, o presidente renunciou em 1991 para evitar o processo de impeachment. O vice-presidente Itamar Franco assume o governo federal e a sua equipe liderada por Fernando Henrique Cardoso (FHC) cria o Plano Real.

Apontado por Itamar (PMDB) como o “pai” do Plano Real, FHC é eleito presidente em 1994 pelo PSDB. Ele conseguiu aprovar a reeleição antes combatida pelo partido e ficou no cargo por dois mandatos consecutivos até 2002, quando a oposição liderada pelo PT elegeu Luiz Inácio Lula da Silva (Lula) como presidente. Lula não só cumpriu dois mandatos como presidente, como elegeu a sua sucessora, Dilma Rousseff, em 2010. Após 12 anos de PT no governo apoiado pelo fisiologismo peemedebista, Dilma consegue ser reeleita em 2014 tendo Michel Temer (PMDB) como candidato a vice-presidente, disputando contra Aécio Neves (PSDB), o que mina as perspectivas dos tucanos de retomar o governo federal. Aterrorizado pela possibilidade de uma “ditatura petista”, movido pelo receio da prevalência do PT indefinidamente nas próximas disputas eleitorais, o PSDB alia-se ao PMDB que trai o PT e aprovam “pautas-bomba” no Congresso Nacional para desgastarem o governo e deixá-lo suscetível ao golpe parlamentar que destituiu Dilma, impingindo mais um retrocesso à democracia brasileira ao não aceitar o resultado das urnas. À época, o Bolsonaro começou a angariar popularidade sendo insuflado pelos partidos aliados do golpe parlamentar como baluarte da luta contra o PT (“comunista”).

A estratégia de certa forma deu certo, porque muita gente ainda acredita que o país não dá certo por causa do PT. Ledo engano, pois o PT fez parte de uma engrenagem muito maior já estabelecida anteriormente e evidenciada pelo Mensalinho do PSDB em Minas Gerais, conseguindo aperfeiçoá-la com o Mensalão ao ponto de tornar-se alvo de todos. Porém, o tiro do PSDB saiu pela culatra porque o partido demonstra um encolhimento a partir destas eleições de 2018, não emplacou o seu candidato a presidente e se exaspera ao constatar que a criação toma conta do criador. Se nenhum fato novo acontecer suficientemente forte para mudar o quadro atual, o segundo turno será mesmo entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).
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Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia