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Para professores, diário escolar digital fracassou
13/08/2019, às 15:35:32

Ferramenta, que deveria aprimorar e facilitar o trabalho docente, teria se tornado fonte de adoecimento nas escolas. Professores têm que comprar pacotes de dados e usar sua própria internet para acessar o Diário Escolar Digital (DED), passam madrugadas acordados, tentando lançar frequência e notas dos alunos, muitas vezes sem sucesso. Sem um sistema adequado e sem conectividade nas escolas, enfrentam lentidão e erros constantes na plataforma, sofrem pressões para cumprimento de prazos e podem até perder o emprego, no caso dos designados. Esse é o resumo das reclamações trazidas pelos professores de diversas partes de Minas Gerais à audiência pública da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), na noite desta segunda-feira (12/8/19). Para os professores, a tentativa de modernizar o trabalho nas escolas estaduais com o uso do DED fracassou totalmente.

Segundo os relatos, o diário digital, implantado na rede estadual de ensino em 2017, não funciona e tem sido mais um fator de estresse e de adoecimento dos professores públicos. A burocracia e o tempo gasto com os problemas técnicos do diário eletrônico estariam sobrecarregando ainda mais os docentes. A presidenta da comissão, deputada Beatriz Cerqueira (PT), informou que será produzido um relatório, para ser encaminhado à Secretaria de Estado da Educação (SEE), com as principais reclamações trazidas pelos professores sobre o diário escolar digital. Ela também afirmou que apresentará um requerimento para que a comissão visite a secretária de Estado Julia Sant´Anna, para entregar as demandas pessoalmente a ela.

Dados desaparecem e notas são somadas incorretamente
Para Adriano José de Paula, professor da rede estadual em Ribeirão das Neves (RMBH), o diário escolar eletrônico só gera tumulto e problemas nas escolas. "A plataforma não funciona, fica fora do ar ou em manutenção constantemente, dá erro de acesso a todo momento. E o aplicativo para celular consegue ser pior ainda!", disse o docente. O professor Marcos Rogério, de Ipatinga (Vale do Aço), leciona filosofia e sociologia em 30 turmas diferentes, tem que abrir um arquivo para cada aula, em cada turma, e preencher 30 diários. "Além de toda a lentidão, alguns dados simplesmente desaparecem, notas vêm somadas de maneira errada", lamentou. Ele contou que, em sua escola, tiveram que aprender a fazer planilha de Excel, para lançar ali os dados e se resguardar, em caso de questionamentos dos pais de alunos.

Desmonte - Alguns dos professores presentes à audiência acreditam que o não investimento para melhorar o diário digital, até hoje, atende a uma estratégia de desmonte da educação pública. "A quem interessa que esse diário seja tão ruim?! É para depois dizer que nada na escola pública funciona, que tem que privatizar mesmo!", afirmou Marcos Rogério. Na opinião do deputado Professor Cleiton, autor do requerimento de deu origem à audiência, juntamente com a deputada Beatriz Cerqueira, Minas Gerais está na contramão, uma vez que a corrente mundial, para melhorar o ensino, é a desburocratização do trabalho do professor. "O docente precisa ter mais tempo para pensar a prática pedagógica em sala, para ler, se capacitar. Não pode perder tanto tempo preenchendo planilhas e lutando com internet que não funciona", ponderou. Como exemplo de boa prática, o deputado citou o Estado do Tocantins, onde o governo implantou um sistema de diário digital, mas deu um tablet para cada professor, com sistema de wi-fi de boa qualidade, para que ele possa usar a ferramenta.

Notificações a professores podem ser consideradas assédio moral
A coordenadora-geral do Sindicato Único dos Trabalhadores na Educação (Sind-Ute), Denise de Paula Romano, afirmou que a entidade tem recebido várias denúncias de professores que têm sido constrangidos e expostos, injustamente, tendo seus nomes afixados no mural da escola, em uma lista de “devedores do diário preenchido”. Ela acredita que o diário tem sido utilizado como instrumento de pressão e assédio dos profissionais e informou que no site da entidade há um formulário para registros de problemas referentes ao diário eletrônico. “O nível de cobrança é muito superior às condições de trabalho que têm sido dadas aos docentes”, afirmou Denise Romano. A advogada e professora de Direito Público da UFMG, Maria Tereza Fonseca Dias, confirmou que, do ponto de vista legal, as pressões e o constrangimento a que os professores da rede estadual têm sido submetidos por causa do diário digital podem, sim, ser classificados como assédio moral.


Secretaria garante que está trabalhando para melhoria do sistema
A representante da Secretaria de Educação, Simone Emerick, coordenadora do Sistema Mineiro de Administração Escolar, não conseguiu responder a todas as questões apresentadas durante a audiência, mas afirmou que o diário digital é uma ferramenta em constante construção e garantiu que a equipe da Prodemge, empresa responsável pelo desenvolvimento da plataforma, está trabalhando para oferecer um sistema melhor para os professores. Segundo ela, os erros estão sendo corrigidos, o tempo de consulta e de processamento de dados no Diário Escolar Digital já diminuiu, e a migração de dados será mais rápida daqui por diante. Ainda de acordo com a representante da secretairia, um aplicativo para celular, reformulado, será entregue em breve aos professores.

Uma das demandas apresentadas pela deputada Beatriz Cerqueira é que, enquanto o sistema não estiver funcionando bem, enquanto todas as escolas não tiverem conectividade adequada, que os prazos de preenchimento do diário sejam repactuados e que não sejam feitas listas de professores devedores do diário. Beatriz Cerqueira lamentou o fato de que, até agora, o diálogo entre as entidades sindicais e a Secretaria de Estado não tenha sido suficiente para resolver os problemas do diário eletrônico. Ela também vai questionar o governo do Estado, por meio de requerimento, sobre os custos de manutenção do sistema e sobre quais correções já estão sendo implementadas.
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Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia