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Editorial - Tratando sintomas
30/08/2019, às 11:20:34

É hipócrita a forma como vem sendo gerida a saúde pública no município, a medida em que dizem que está bem enquanto na realidade é o contrário. Outra hipocrisia é comparar a saúde ofertada à população de Araxá com outras piores existentes em todo o país, porque se a intenção fosse boa deveria ser comparada com outras gestões muito melhores do que a exercitada há décadas no município. Mas em relação a governos anteriores, a diferença é a hipocrisia do atual, a dissimulação no trato político.

Hipocrisia deriva do latim e do grego, remetendo a atores teatrais que usavam máscaras conforme os seus papeis à época. “O hipócrita é alguém que oculta a realidade através de uma máscara de aparência”, cita o site Significados. Essa maneira de tratar a saúde pública local é o grande problema, porque impede os governantes de verem e assim tratar as causas, ou seja, a raiz dos problemas. O poder pelo poder tem impedido o diagnóstico adequado da área e a adoção das medidas que são cada vez mais esperadas pela população, porque a demanda só cresce e os investimentos não as acompanham pelo menos na mesma medida.

É só fazer um histórico para entender que a saúde não vai bem, a partir do período em que Araxá foi um dos pioneiros no país a municipalizar a saúde no final dos anos 1990. Tanto que no Estado o município foi um dos últimos ao invés dos primeiros a sair da gestão básica para a plena que está em vigor somente há uns dois anos. A consequência é a falta de índices históricos para pleitear o credenciamento de serviços de média e alta complexidade no município.

Em Araxá, os políticos fingem que a saúde vai muito bem, elogiando o governo municipal como se a área estivesse progredindo, enquanto ao contrário, é claro o retrocesso. Nestes vinte anos, a atual precária situação da saúde no município só não está pior graças à Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) que tem acudido como sempre algumas emergências. Porém, apesar de possuir os recursos, Araxá não acompanhou e não acompanha esse progresso na área. Então, cabe perguntar como estão sendo aplicados os cerca de 15% do Orçamento Municipal anual destinados à saúde, diante de tanta carência básica. As contas não batem com a realidade, mais uma hipocrisia.

Nos últimos cinco anos, a estrutura física de atendimento à saúde pública cresceu de fato com a construção do Pronto Atendimento Municipal (PAM), com um investimento de R$ 6 milhões feito pela CBMM e recursos dos governo federal. Mas mesmo com a inauguração da edificação, os problemas persistem porque não se trabalhou a ponta, a melhoria do atendimento lá na Unidade Básica de Saúde (UBS). Esses serviços continuam aquém da demanda como dantes e, por isto, a população deságua na UPA para consultar de forma mais rápida, sendo culpada pelo problema do mau atendimento pelo próprio governo municipal.

Na reunião ordinária da Câmara Municipal de terça-feira, 20, não faltaram exposições por parte dos vereadores sobre essa alarmante situação. Já que o assunto voltou a ser discutido com a exposição de uma pessoa idosa chorando em rede estadual de televisão, porque não tem remédio na “Farmacinha”. Assim como uma idosa morreu depois de aguardar por cinco dias na UPA sem fazer sequer uma tomografia, a vaga de internação na Santa Casa pelo SUS Fácil. O descaso das autoridades com a saúde de todos é tanto, ao ponto da Prefeitura de Araxá enviar água da Copasa para abastecer a comunidade rural Boca da Mata em caminhão-pipa sem ser higienizado. Essa água com características impróprias ao consumo humano está sendo analisada, a partir de amostras colhidas pelo vereador Robson Magela. E mais de 100 pessoas aguardam indefinidamente na fila por um exame de cateterismo que quando ofertado pela rede municipal de saúde tem que ser realizado fora de Araxá. Assim como uma rubrica de R$ 1,5 milhão destinado ao Centro de Quimioterapia da Santa Casa continua intacta no orçamento municipal em execução, sem falar da histórica falta de recursos do hospital que está sempre prestes a fechar, aumentando um déficit que já passa de R$ 12 milhões.

Realmente, como praticamente a saúde ofertada à população não evoluiu em Araxá, atendimentos de média e alta complexidade pelo SUS dependem do serviço de Tratamento Fora de Domicílio (TFD) que impinge aos pacientes um sacrifício a mais e consome boa parte dos recursos destinados à saúde. As necessárias adequações das antigas UNIs conforme as exigências da Vigilância Sanitária estavam programadas para começar desde 2013 e somente agora estão terminando a primeira reforma, a da Unisa. A informatização de todo o sistema municipal de saúde é uma promessa que faz aniversário de pelo menos uma década, de forma que o paciente pudesse ser acompanhado desde a consulta básica, o atendimento pelo especialista, a cirurgia se for o caso etc.

Chega de hipocrisia, é preciso encarar para mudar a realidade. As pessoas ainda vão cedo para a fila nos postos de saúde só para agendar uma consulta com o clínico geral e, quando conseguem, se precisarem de um especialista, um exame de maior complexidade, uma cirurgia eletiva, é outro drama. A hipocrisia também é usada num duplo sentido, quando se acredita que existem normas morais diferentes para determinados grupos de pessoas, como os políticos.
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Clarim
Radix Comunicação e Tecnologia