Áreas verdes urbanas

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   Certa ocasião, nos anos 1970, numa grande cidade da América Latina, o poder público resolveu remodelar totalmente uma antiga praça.
   Como ocorre com muitas praças por esse país afora, esta também tinha uma longa história. Antes de ter sido transformada em praça, foi uma chácara, depois local onde aconteciam competições esportivas, depois espaço de realização de feiras-livres e estacionamento de automóveis.   
   A cidade cresceu, sua população aumentou, e aumentou muito também o número de veículos nas ruas, que ficaram apertadas para tanto carro. Novas habitações contribuíram para o adensamento urbano da região e novas avenidas, viadutos e outros equipamentos urbanos foram implantados.
   Tudo isso mais a pressão dos empreendedores e a perspectiva de novos ganhos, aliado à vaidade e a outras expectativas dos administradores, conduziu a um novo projeto para a praça. Certas concepções existentes naquela época valorizavam muito o concreto, as construções com cimento e aço, identificados com a modernidade, com o progresso e o futuro.
   Muito concreto e poucas árvores levaram o povo e a imprensa a apelidar a praça de “monstrengo arquitetônico”. E ela tornou-se motivo de discórdia, desprezada pela população, pretexto para críticas à administração. Durante 30 anos, tentou-se de tudo um pouco para amenizar os erros cometidos na fracassada praça, a intervenção desastrosa. No ano 2000, chegou-se à conclusão que o melhor a fazer era demolir tudo e tentar construir uma nova praça, com uma nova concepção, mais adequada aos nossos tempos, aos anseios da população por mais áreas verdes, por espaços livres para lazer e descanso.
   Nesse ínterim, há um episódio pouco conhecido e pitoresco que vale a pena ser recontado. O tempo transcorrido já mistura memória e lenda.
   Logo que a nova praça foi inaugurada, recebeu muitas críticas pela ausência do verde, de vegetação, de jardins. A população chegou a se mobilizar, a reivindicar um novo projeto. Mas não era da índole das administrações do período aceitar críticas, não tinham o costume, saudável e democrático, de dialogarem com a comunidade. Tanto as críticas e manifestações incomodaram, até que um prefeito disse que tinha a solução: mandou pintar de verde os muros de concreto. Pois, se era verde o que a população queria…
   Depois do ano 2000, ainda arrastou-se por mais dez anos a decisão pela demolição e revitalização do local e do entorno. A população da cidade foi quem mais perdeu com a teimosia e a recusa dos administradores em dotar a praça de jardins, de árvores e de cuidar da praça como deveria. No final da década de 1980 e nos anos 1990, o local se deteriorou num ritmo alucinante. A praça tornou-se abrigo de miseráveis, local de atuação de assaltantes, com ocorrência de vários furtos, roubos, consumo de drogas e outras mazelas sociais.
   As áreas verdes cumprem diversas funções nas cidades, muitas delas de caráter subjetivo. Trazem benefícios à população. Contribuem para a redução da poluição, ajudam a diminuir a velocidade dos ventos, reduzem a poluição sonora, propiciam o sombreamento, dão abrigo à fauna, principalmente aos pássaros, interferem positivamente no balanço hídrico, influenciam as temperaturas, absorvendo os raios solares, e valorizam a região. Desde que bem cuidadas.
   Cabe ao poder público garantir que essas áreas cumpram suas funções. Para tanto, devem responsabilizar-se por sua manutenção e conservação, estimulando a população a envolver-se com o local, preservando equipamentos, bebedouros, banheiros, mobiliários. Deve estabelecer parcerias com outros órgãos, visando o desenvolvimento de atitudes positivas de cuidado e co-gestão dos bens públicos. Essas áreas são, na essência, públicas, e assim devem continuar a ser.
   As cidades brasileiras, de modo geral, têm poucas áreas verdes urbanos. Mas a situação está mudando. Muitas administrações, caminhando na direção da construção de uma cidade acolhedora, de um ambiente urbano saudável, têm contribuído para mudar um panorama anteriormente árido e hostil.
   As cidades localizadas na região do Cerrado merecem uma atenção especial, pois aí a estação seca é bem pronunciada, a umidade relativa do ar cai muito no inverno tropical. A baixa umidade chega a prejudicar a saúde das pessoas. Daí maior a importância das áreas verdes para atenuar os efeitos da secura. Quanto mais áreas verdes, melhor.
   Exemplos tristes e vexatórios como o da praça mencionada no início, deveriam servir de lição para que as administrações ouvissem a opinião pública antes de realizarem intervenções urbanas, ainda mais se o assunto são áreas verdes. Senão, daqui a pouco veremos algumas prefeituras pintando o asfalto de verde, instalando caixas de som que imitam o som de pássaros nos postes e comprando, com o dinheiro público, é claro, árvores de plástico reciclado para serem “plantadas” nas vias públicas.

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