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:: Opinião :: Retrato do desprezo
03/04/2017, às 09:45:32


O casarão no alto da Av. Imbiara, nº 940, em Araxá-MG, com características da arquitetura neoclássica, inspirada em ancestrais espanhóis abarca reminiscências de um século - basta isso para fazer desta magnífica obra estrutural um importante patrimônio memorável e histórico de Araxá. Entrementes, ele se encontra à beira de desabamento e/ou demolição – o que seria uma perda irreparável para a memória histórica araxaense. Em total abandono num desleixo sem precedentes, o casarão retrata desprezo, ausência de consideração, implora por socorro... É a face enrugada de um século levado pelo vento igual fumaça que a tudo faz efemerizar e morrer...

Há que se lamentar, respeitosamente, a falta de interesse por parte de autoridades competentes diante do valor deste belíssimo casarão. Agora, suplicante às intempéries destruindo sua imponência, deteriorando-se dia após dia devido a silenciosos desacordos empresariais e políticos. Há que se admirar décadas de descuido e incúria, hostilidades e desconsideração cultural e ver que, apesar de tantos anos de desgastes, o casarão ainda resiste sobre suas estruturas inabaladas, resoluto - mesmo maltratado pelo vento e chuva, sol e umidade, incoerência e descaso - ele permanece impondo sua condição singular na mais absoluta solidão, como se fosse o último rochedo de nobreza secular no alto da Avenida Imbiara.

Que lástima ver tanto abandono!... O que poderia ser tombado pelo Patrimônio Histórico, ser museu, ser casa de cultura, ser hospital geriátrico, um lugar onde a História de Araxá perdurasse, uma casa de janelas abertas, ao menos, onde o sol voltasse a dar vida ao que já foi vida!...

Estive lá pra ver, mas antes não tivesse ido, fiquei aterrorizada... Quanto lamento! O impacto foi brutal, sacudiu-me ao ver a casa onde cresci, agora sem luz, deteriorada em total abandono. Senti-me vulnerável diante de tanto descaso. A decepção não teve piedade, provocou pranto como se o coração fosse parar... Por mais crápula que seja a trama sinistra do tempo que tudo apaga, por que tanto desprezo? Tanto desinteresse? Emudeci ao revê-la assim maltratada, apodrecendo sob o olhar de transeuntes, desfalecendo-se sob o sol, chuva, vento, escuridão... Oh, Deus pra onde foi o pulsar dos corações com interesses inteligentes dos homens de boa vontade? O que faria perpetuar a coerência de uns poucos? Araxá é uma cidade de nobreza, gera interesses empresariais ímpares para o Brasil e para o mundo, é rica, gera empregos, tem empreendedorismo de sobra e grandiosas arrecadações estadual e nacional com um dos mais expressivos PIBs do País. O que se poderia fazer para salvar esse belíssimo casarão?

Por um momento, estive pensando nessas possibilidades - comigo mesma fiquei, ali, no alpendre do casarão, folheando memórias de família... Às portas de fazer 100 anos de inaugurado, o casarão foi o mais nobre presente de João Ribeiro Sosa, meu avô (1864/1949), para sua amada imortal esposa Maria Januária Borges (1875/1972), minha avó (1895/1972) - eles eram almas gêmeas, contaram-me todos da família e quem os conheciam... O “castelo” como foi chamado por meu avô, foi promessa de amor à minha avó. Começou a ser construído no verão de 1917 e foi inaugurado na primavera de 1928, dia 15 de setembro, aniversário de minha avó. Toda a madeira já estava sendo “curtida” há 10 anos nos porões de uma das fazendas de meu avô, a de ”Tombador”. Tudo com total esmero para não carunchar portais, janelões, portões e desenhos do teto combinando com o piso das salas e quartos – o que é bem verdade, pois em um século jamais carunchos destruíram a madeira-de-lei da construção. O esplendor dos jardins e do pomar rodeava a casa em pencas de frutos e flores em cachos, em perfumadas e afloradas primaveras durante dezenas de anos, frutos perfumavam o ar de janeiro a janeiro, tudo dando vida ao que já foi vida - assim era, e nada poderá demolir os sonhos de meus avós, meus tios, primos, meu pai e irmãos.

Tomamos consciência de que o casarão foi motivo de Projeto na Câmara de Vereadores de Araxá solicitando seu Tombamento ou a sua preservação, mas o projeto foi embargado. Em 2015, foi feito relatório sobre o casarão; houve interesse de uma empresa de construção civil da cidade em manter parte do casarão, a fachada, para ser hall de entrada de um suposto edifício - a mesma construtora cogitou interesse em construir na parte detrás do casarão, mas até hoje o Ministério Público não autorizou a construção ou a preservação do casarão - eles querem que a construtora preserve o casarão como um todo, mas a construtora quer retirar a parte do fundo da casa que foi alterada no decorrer dos anos... Com tanta espera e indecisões, a construção vai se degradando e nenhuma alternativa chega a um consenso. Engenheiros, arquitetos, construtoras, historiadores e interessados pelos valores históricos das comunidades, cogitaram construir um hotel e preservar a fachada do casarão, mas nada ainda foi decidido pelos atuais proprietários. Enquanto isso, o casarão resiste, majestosamente.

Sem dúvida, uma das maiores riquezas culturais da arquitetura do século 19 que Araxá possui. Lá está a “Chácara” como era chamada pelos meus avós e familiares no alto da Av. Imbiara, belíssima, única, com traços seculares e esplendorosos esperando por um milagre, alguém para valorizar o belo e digno de preservação e, por certo se perguntando, “até quando?!”...



Márcia Ribeiro Borges é jornalista, artigo redigido em 24/03/2017.

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