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Editorial - O tiro no pé
02/01/2020, às 09:55:12

A imagem da Câmara Municipal não vem sendo das melhores junto à população em geral, mas este desgaste chega ao auge com o aumento do salário dos vereadores para a próxima legislatura. Ninguém esperava a tolice encabeçada pela mesa diretora presidida pelo experiente vereador Carlos Roberto Rosa de apresentar um projeto de resolução para reajustar de R$ 8,9 mil até R$ 12,5 mil o salário dos vereadores na próxima gestão, ou seja, cerca de 40%. Se não bastasse esse tiro no pé, os oito vereadores que votaram a favor ainda insistem em suportar a ferida, mesmo correndo o risco de estar supurada nas Eleições de 2020. 
 
A iniciativa de aumentar o salário do vereador para a próxima legislatura (2021/2024) foi encoberta por uma argumentação que não convence nem mesmo o eleitor mais desavisado. Para despistar o alvo, o projeto aprovado por 8 votos contra 6 apresenta como opção de cada vereador estabelecer o que quer ganhar até o teto de R$ 12,5 mil ou mesmo pode renunciar a receber qualquer pagamento. Porém, o vereador que votou a favor desse aumento agora e for reeleito pode se beneficiar em 2021 da opção de querer ganhar o teto. E a grande maioria, senão todos, pretende disputar o cargo nas Eleições 2020. Se isso é legal, no mínimo é imoral. 
 
Resta perguntar aos autores do projeto da mesa diretora, vereadores Roberto (presidente), Fárley Aquino Pereira (vice-presidente) e Zezinho da Aserpa (1º secretário), qual a razão da corajosa iniciativa de aumentarem os salários dos vereadores sem considerar a conjuntura de descrédito da classe política. A única explicação plausível é a de que realmente querem ganhar mais se forem reeleitos, porque consideram muito pouco o salário de R$ 8,9 mil por mês para ir à Câmara Municipal apenas meio período por dia para atender o público externo - quando vão, além de participar de uma reunião ordinária por semana que dura em média quatro horas. 
 
É preciso ressaltar que ser vereador não é profissão e sim o exercício de um cargo eletivo a favor dos cidadãos acima de tudo, mas em Araxá há muito que existe uma inversão destes valores. Como numa gravação vazada na rede social, na qual um vereador araxaense diz aplicar todo o seu salário líquido (cerca de R$ 7 mil) na compra de defensivo agrícola. É preciso dizer a ele que verear não é bater ponto e se consegue carrear recursos para o município não faz mais do que o esperado por seus eleitores. 




Aliás, o que o eleitor de hoje mais está esperto é com quem pretende continuar fazendo da política uma carreira pessoal, quase sempre baseada na troca de favores. Existe vereador que defende receber não somente os R$ 12,5 mil, mas o piso máximo estabelecido pela Constituição Federal de R$ 14 mil, equivalente à metade do salário de um deputado estadual em Minas Gerais. O que além de ser exorbitante afronta não só a moral, como a lógica. Já que existem cidades mineiras com mais de 100 mil habitantes com vereadores que ganham menos do que o teto máximo, assim como têm cidades a exemplo de Araxá que são bem menores mas elegem políticos que querem receber o máximo possível no exercício do cargo e nada mais importa.
 
Os vereadores que aprovaram o reajuste salarial demonstram que ainda praticam a velha política, a que tem feito mal a Araxá ao ponto de a população não suportar mais a dor da ferida. Essa atitude deles vai repercutir muito lá na frente, inclusive prejudicando a imagem de quem votou contra o reajuste, mas não fez nada para revertê-lo e foi conivente com todo o esquema armado para que a votação ocorresse sem qualquer alarde por parte dos vereadores. Subjetivamente, o voto contrário ao aumento representa a omissão daqueles vereadores que não concordam com a mesa diretora e não fizeram nada para mudar as coisas, participando do jogo armado para ludibriar o eleitor. 
 
Tanto é que a reunião ordinária de terça-feira, 17, deveria ter sido realizada no horário normal das 14h, mas primeiro foi remarcada para as 8h30 e, de última hora, para as 7h – o que denota a tentativa de evitar a manifestação popular na Casa como prometido por internautas. Aparentemente deu certo, porque o assunto sequer foi discutido na última reunião ordinária do ano, com a presença de uns poucos e muito indignados manifestantes. Na reunião, ao invés de retroceder e procurar reconciliar-se com a população, o Poder Legislativo calou-se aumentando a ferida no pé. 
 
Pois nesse período pré-eleitoral, é sentido que a classe política ainda não entendeu que - querendo ou não - a grande insatisfação da comunidade com a cidade vai estar refletida nas urnas através da crescente vontade do eleitor de renovar e que dificilmente será revertida. Aliás, já estão usando dessa vontade ao pedir que não votem em quem já ocupa cargo eletivo em Araxá, de forma geral. Mas essa política de 8 ou 80 também deve ser refutada, porque com tanta informação à disposição, o eleitor está cada vez mais preparado para escolher melhor os seus representantes, com independência e a favor da boa política.
 
A ferida provocada pelo tiro no pé dos vereadores está aberta, começa a expelir o pus e, senão for fechada, vai inflamar até supurar em breve. Esse processo de degeneração precisa ser estancado por eles, caso não queiram amputar o pé nas Eleições de 2020.  
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Clarim
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