Logo
Araxá / MG - , -
Clarim no WhatsApp (34) 98893-8381
Menu

Digite pelo menos 2 caracteres!
EDITORIAL - O prédio caiu
04/09/2020, às 09:38:11
A construção do que viria a desabar oito anos depois começou na disputa eleitoral de 2012, quando dois líderes políticos que vinham disputando juntos as eleições há três pleitos consecutivos e, que venceram em 2008, protagonizaram um racha na política dominante em Araxá há pelo menos quatro décadas. 

Ora juntos, ora separados, mas sempre no loteamento do poder, essa hegemonia política girou em torno da máquina pública como o principal instrumento de permanência à frente do município. Como define o delegado de Polícia Civil (PC) responsável pelas investigações da operação Malebolge que desconstroem esse antigo esquema, Renato Alcino, é como uma teia de aranha que envolve a administração municipal de Araxá. Outro bom comparativo é o de um imponente prédio de muitos andares, mas mal construído e que está desabando lentamente até o primeiro andar, com o esforço de alguns destemidos que ao desvendarem um esquema de corrupção acabaram acertando uma verdadeira organização criminosa que tomou conta da Prefeitura de Araxá na base do “pão e pau”.

Nas Eleições Municipais 2012, o líder rebelado vence o pleito contra todos os outros políticos da velha guarda que se uniram mais uma vez com vistas à manutenção do poder. A pequena diferença de votos tornava a derrota ainda mais amarga e, então, houve pedidos de recontagem  e outras tentativas de anular o resultado, ações para impedir a diplomação e depois a posse do vencedor, sem sucesso. 

Porém, o governante rebelde que insurgiu contra a política vigente no município há tantos anos não teve sossego para governar nos quase quatro anos que administrou a cidade naquela gestão até ser impedido pela Justiça, sempre provocada pelo grupo que perdeu o controle da máquina e que consegue ascender ao poder em 14 de novembro de 2014. Eles já estavam juntos desde o hercúleo esforço de derrubar o resultado das urnas, o voto popular. Com tantas perturbações, lutando para terminar a sua gestão, o governo anterior era massacrado nas redes sociais, respondia uma enxovalhada de denúncias inclusive infundadas e até armadas, sendo minado dentro do próprio seio a cada decisão judicial que levava o outro grupo a assumir interinamente a administração municipal.



Em meados de 2014, havia R$ 50 milhões nos cofres públicos e mais da metade foram gastos e ainda distribuídos a entidades da cidade indiscriminadamente e à imprensa marrom até a queda final do ex-prefeito. Uma das primeiras atitudes da atual gestão, ainda no final de 2014, foi contratar uma auditoria, sem licitação - avalia-se que ao final custou cerca de R$ 600 mil aos cofres públicos – justificando a sua necessidade mediante a transição atípica de governo. Esse trabalho que seria a princípio de três meses estendeu-se por mais de um ano e culminou com mais uma carreada de denúncias contra o ex-prefeito já massacrado de todas as formas, inclusive preso injustamente em decorrência de uma dessas armações feitas com vistas à eleição da gestão municipal que não tinha sido eleita em 2012 e que queria de todas as formas ser validada pelo voto direto do eleitor em 2016.

Os percalços dessa construção política é a falta de alicerce, liga, argamassa, pois tão logo assumiram os poderes Executivo e Legislativo da cidade começaram os problemas. O chamado fogo amigo queimou vários pedreiros, como sempre. A operação policial desencadeada em 2015 para apurar desvio de recursos públicos com o uso de entidades filantrópicas chega claramente à classe política e, então, no salva-se quem puder, oito vereadores foram presos. A maioria da Câmara Municipal à época pregava o afamado grupo dos 9 – fechado para garantir a aprovação dos projetos de interesse do Executivo sem a necessidade de ouvir a oposição e, muito menos, a população.

O admirável é que desabou um andar, mas o prédio continuou de pé. Mesmo com as operações policiais em 2015, o plano de poder prevaleceu com o pesado uso da máquina pública através dos envolvidos nos interesses espúrios de uso dos recursos públicos para vencer as eleições de 2016. A política das benesses e da opressão dá às caras ao tomar conta da prefeitura como a síndica do condomínio. E somente assim, arduamente e ardilosamente, venceram as eleições de 2016 e reestabeleceram o front da organização. 

Desde então, os últimos mais de três anos têm sido marcados pelo desgoverno, onde pessoas não são bem recebidas na Prefeitura de Araxá, inclusive a imprensa que não se vende. É incompreensível o domínio da Secretaria Municipal de Governo que centralizou tudo nas mãos do prefeito e da ocupante da pasta à época que com o tempo acabou virando a própria governante, com assustadores desmandos no mesmo apartamento de cobertura do esquema. 



Todos agraciados com cargos no poder público municipal, licitações, favores e sabe-se lá mais o que, sentiram convicção de que seria possível ganhar as Eleições 2020 da mesma forma como anteriormente, não somente com o uso da máquina administrativa, mas com os recursos desviados ao longo desse tempo no poder. Tanto que o prefeito, a secretária, o marido da secretária se filiaram num mesmo partido e, ao redor deste, angariaram outros para formarem o massacrante exército eleitoral. 

Tudo isso com a facilidade da decretação do estado de calamidade pública no município até dezembro em decorrência da Covid-19. De repente, uma cidade que está sem luz literalmente, começa a inaugurar e gastar em pleno ano eleitoral em obras paralelas que reforçam o empreendimento principal, algumas iniciadas antes de assumirem o governo há seis anos. O hábito de construir edifícios do poder como esse que ora desaba leva à desatenção, à vaidade, à convicção de que são mestres de obra e que os pedreiros trabalham muito bem, não só na construção da rede de apartamentos como na garantia dos necessários recursos que financiam a organização criminosa. 

Porém, mais uma vez, não contavam que a Polícia Civil amparada pelo Ministério Público e Poder Judiciário daria continuidade com afinco à investigação inicial que já teve 11 desdobramentos, o último deles é a operação Malebolge que está na sua segunda fase. Até esta semana, a operação contabilizava sete prisões, sendo cinco preventivas e duas temporárias. Do primeiro foco que era o desvio de recursos públicos destinados ao transporte de vans, passar para o segundo que apura o uso da máquina pública para fins eleitorais foi um pulo.
Compartilhar no WhatsApp
Clarim
Radix Tecnologia