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Das Gerais à Dona Beja
25/01/2012, às 09:05:40

Dayana Rodrigues Vaz

 

Museu Dona Beja


    O Estado de Minas Gerais abriga um cenário repleto de cultura, culinária, arte, folclore, histórias e muita prosa. O mineiro tem suas características típicas e sabe como ninguém receber seus convidados. Seja com um delicioso pão de queijo com café, ou com doces saborosos. Ao visitar a casa de um mineiro, o aconchego, a boa recepção e um bom dedinho de prosa não podem faltar.
    Toda essa cordialidade e agradável recepção estão presentes na cidade de Araxá que fica no interior de Minas Gerais, em tupi-guarani significa “lugar alto, onde primeiro se avista o sol”. O município possui cerca de 90 mil habitantes e está localizado na mesorregião do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, tendo em sua formação geológica riquezas minerais como águas sulforosas e radioativas, a apatita e o nióbio. Na bacia do Barreiro, viveram mamíferos pré-históricos há milhares de anos. Além disso, Araxá é conhecida por suas águas, lamas e banhos terapêuticos. Os pontos turísticos mais visitados são o Grande Hotel do Barreiro, o Parque Nacional da Serra da Canastra, Parque do Cristo, Fonte Andrade, Horizonte Perdido, dentre outros lugares que retratam uma natureza exuberante e proporcionam tranquilidade e um bom descanso.
    A partir de 1914, Araxá fortaleceu-se como Pólo Turístico, sendo que em 1944 foi inaugurado o Complexo Termal - Grande Hotel e Balneário. Assim, o município cresceu junto com o turismo e, é por meio dele, que as pessoas de outras cidades e países se interessam em conhecer uma cultura requintada de museus, lazer e figuras históricas. Ao ressaltar figuras, não podemos esquecer que a cidade abriga ilustres nomes como o pintor e escultor Calmon Barreto, a escrava Filomena (que segundo a tradição foi enterrada viva), o Padroeiro de Araxá São Domingos de Gusmão (fundador da Ordem Dominicana) e também há o mito Dona Beja.


Dona Beja
    Ela foi uma mulher, digamos, diferente para os princípios do século XIX. Anna Jacintha de São José, a Dona Beja, nasceu em 1800, na cidade de Forminga (MG). Ela teve um único irmão, Francisco Antônio Rodrigues, e faleceu em 1873, em Estrela do Sul (antiga Bagagem, onde Dona Beja despertou-se na busca pelo garimpo de diamantes e também onde teriam sido encontrados os prováveis restos mortais deste que é um dos maiores símbolos de Araxá). Ela foi proprietária de terras, reconquistou territórios, negociou escravos e diamantes, dentre outras atividades que já mostravam indícios de que não era uma simples dona de casa como as mulheres de seu tempo.
    A trajetória de Anna Jacintha tem muitas referências. Ela passou muitos anos em Araxá e a segunda metade da sua vida em Estrela do Sul. Considerada uma das cidades mais antigas de Minas Gerais, Estrela do Sul é também conhecida por ser a cidade do Triângulo Mineiro e do Alto Paranaíba que abriga o maior número de construções coloniais. Em 1816, o mérito da reconquista do território do Triângulo Mineiro para Minas Gerais foi dado à Beja, quando a região deixou de pertencer a Goiás. São várias as gerações que contam esse episódio, momento em que viveu em Paracatu depois de ter sido raptada pelo ouvidor Joaquim Inácio Silveira da Mota, quando este esteve em Araxá.
    Assim, Dona Beja teria voltado a Araxá para recomeçar a vida em 1819, quando a sua filha Thereza Thomázia de Jesus foi batizada. Driblando as tradições da época, solteira, teve uma segunda filha, nascida em 1838, de nome Joana de Deus de São José.
    Dona Beja conseguiu alcançar uma posição social favorável mesmo sendo uma mulher solteira, analfabeta e moradora do arraial de São Domingos do Araxá. Havia um sobrado construído em 1830 de propriedade de Beja, num terreno onde se concentravam a Câmara, a Igreja e as melhores casas da então Vila do Araxá. Além de proprietária de imóveis, como a Chácara Dona Beja, popularmente conhecida com Chácara Jatobá, também possuía escravos.
    Em torno de 1850, Dona Beja mudou-se para Bagagem, a fim de encontrar diamantes. Naquele momento, Araxá passava por uma estagnação econômica, numa fase em que os conflitos políticos tinham reflexos e estes podiam ser sentidos e presenciados. Foi em Bagagem, ao lado da filha Joana, do genro Clementino e dos netos, que ela fincou suas raízes e permaneceu até a sua morte. Seu testamento foi feito em 1869, mostrando uma mulher não possuidora de muitos bens, porém, fielmente dedicada ao catolicismo.
    Araxá é terra de onde primeiro se avista o sol, é terra de índios, de “uais”, queijo e goiabada, é tradição, é Minas... É também terra de Maria, a dona de casa que trabalha e cuida dos filhos e, de João, que sai cedo para trabalhar e chega à noite para jantar com a família. É terra também de Anna Jacintha de São José, a mulher que deixou seu caráter simbólico e fez história.


Conhecida por Beja ou Beija?
     O apelido Dona Beja, ou Beija, nas documentações existentes apareceu somente no final do século XIX, em 1873, após a morte de nossa personagem. Anna Jacintha de São José, antes de falecer era identificada nos documentos oficiais pelo próprio nome e, obviamente, não pelo apelido. Os critérios para eleição do nome ficaram de acordo com cada autor, seja o significado do apelido à beleza da flor “beijo” (nome popular do hibisco) ou à ave “beija flor” (de acordo com Aurélio Buarque de Holanda, alimenta-se de insetos minúsculos e do néctar das flores).


Música
    Sua história foi musicada por Aurinho da Ilha e cantada por José Bispo (Jamelão) em 1968, no enredo “Dona Beija, a Feiticeira de Araxá”, tema da escola de samba carioca Salgueiro. Seu nome também teve repercussão no samba-enredo “Araxá - Lugar alto onde primeiro se avista o sol”, da Beija Flor de Nilópolis (RJ), cantado por Luiz Antônio Feliciano (Neguinho da Beija Flor), em 1999.



          

Peças de Dona Beja 

 



A marca de Dona Beja
    Carlos Henrique Vieira, monitor do museu criado em sua homenagem, conta sobre o comércio e os pertences de Dona Beja: “O museu tem 46 anos, desde sua fundação com Assis Chateaubriand em 1965, é o mito de Dona Beja e os indícios de que ela foi uma mulher à frente de seu tempo que atraem turistas de longe até aqui. O museu tem objetos que foram de uso pessoal dela, como uma balança de cobre, um medalhão do sagrado coração de Jesus em ouro e documentos. Existem mais peças e objetos que não foram dela, mas que ilustram o século XIX. O nome já caiu em domínio público, assim, existem vários produtos que carregam seu nome no comércio de Araxá: café, cachaça, mussarela, queijo e doces. Sendo assim, todos esses produtos são tradicionais da nossa cidade e adotaram o nome Dona Beja como marca”.

Mais que um mito
    Raquel Costa, professora de História, acredita que Dona Beja virou mito porque não era uma mulher comum e ela fala um pouco sobre suas aptidões e trajetória: “Depois do romance (ficção) ‘A vida em flor de Dona Beja’, escrito por Agripa Vasconcelos, e após a telenovela exibida na Manchete em 1986, o nome e um pouco da história de Dona Beja tiveram uma maior repercussão. Ao contrário do que todos acham ou sabem por meio da ficção, na realidade não há pesquisas que comprovem que Dona Beja foi uma cortesã, tampouco uma mulher conhecida por encantar muitos homens devido a sua beleza. Foi mãe solteira, teve duas filhas: Thereza Thomázia e Joana de Deus. Estudando sua história mais a fundo, não a vejo como a mídia mostrou ou a internet, ou mesmo livros romancistas. Dona Beja foi uma mulher inteligente, proprietária e excelente negociadora de escravos e lutava para a melhoria de sua cidade. Herdou terras, participava de reuniões em sua chácara, teve um grande interesse na garimpagem de diamantes, contribuiu financeiramente para a construção da ponte do rio Bagagem. Participou tanto da vida política, que conseguiu casar suas duas filhas com homens influentes e tradicionais daquela época. Mais do que um mito, ela era uma mulher que lutava pelos seus ideais”.

   Texto de Dayana Rodrigues Vaz – estudante do 7º período de Jornalismo da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) e estagiária do Clarim

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