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Você sabe da última?
17/02/2012, às 07:48:22

    A ciência acaba de comprovar que fofocar faz bem pra saúde, pois reduz o estresse e pode ajudar na manutenção da ordem social. Pesquisas realizadas na Universidade de Staffordshire, na Inglaterra, e na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, chegaram a conclusões bastante parecidas no que se refere aos benefícios que a fofoca pode promover no “bom” fofoqueiro. Bom no sentido real da palavra. Os resultados obtidos pela universidade inglesa apontam que depois de comentar a vida alheia sem maldade, as emoções positivas dos voluntários subiam 3%, as emoções negativas diminuíam 6% e a autoestima crescia 5%.
    Os percentuais são tímidos, mas já estão repercutindo na grande imprensa, nas publicações científicas, na mídia especializada e, sobretudo, na internet. Os blogs dedicados às fofocas de celebridades estão em festa. E não é pra menos! Uma fofoquinha ingênua pode reduzir os batimentos cardíacos momentaneamente, amenizar frustrações e de quebra ajuda a inibir comportamentos inadequados. E a notícia é boa mesmo. Praticamente, todos nós eventualmente caímos em tentação e comentamos com ares sapecas as atitudes dos outros.
    É possível que a fofoca positiva seja esta, feita descontraidamente, sem veneno. Quero acreditar que este tipo de fofoca é o que originou a criação do verbo fuxicar, que a propósito é sinônimo de fofocar. Ouvi dizer, em algum lugar... que antigamente (antes do feminismo) nossas ancestrais viviam com dedicação exclusiva as suas casas, seus maridos e seus filhos. E cuidavam com esmero de todos os detalhes da casa. E um destes cuidados dizia respeito a um tipo de produção artesanal de bordado: o fuxico. Quem conhece sabe que este bordado é singelo e bonito. Fácil de fazer e repetitivo. A técnica é: alinhavar e coser pequenos retalhos a pontos largos.
      Diz a lenda que para não mergulhar na dinâmica da solidão, as mulheres passaram a se reunir nas casas umas das outras para produzirem os seus fuxicos. Ao trabalharem em grupos, elas trocavam retalhos, idealizavam peças, bordavam, atualizavam as conversas e fofocavam! E entre uma fofoca aqui, um fuxico ali, tudo virou peça chave dentro do contexto! Curiosas para saberem o desfecho do último tititi, as donas de casa intensificaram a produção dos bordados. Aonde você vai, bem? Perguntavam os maridos. Vou pra casa da Fuluna fazer fuxico, querido!
    Os grupos de fuxiqueiras aumentavam e diversificavam. Assim como eram comum as migrações de mulheres de um grupo para outro, pois divergiam dos modelos dos fuxicos e do conteúdo das fofocas, é claro. E assim, entre linhas, agulhas, retalhos e pequenas doses de veneno, essas mulheres produziram mais um conceito à luz da intuitiva sabedoria popular: fofocar faz bem! Sim, elas cumpriam com suas obrigações domésticas, interagiam entre si, cuidavam umas das outras, se informavam e, sobretudo, produziam hormônios. Segundo o psicólogo Colin Gill, um dos coordenadores do estudo na Inglaterra, “fazer fofoca eleva os níveis dos chamados hormônios positivos como serotonina, o que faz diminuir o stress, a ansiedade”.
    É sabido que uma fofoca pode ser fruto de atitudes invasivas, antiéticas e até mesmo da invenção de boatos que só têm como objetivos prejudicar os outros. Mas no caso da fofoca sem maldade, quem merece dividir as homenagens com os pesquisadores por esta comprovação científica são as nossas ancestrais. Além de agregar estética aos afazeres domésticos, criando uma técnica bonita, colorida e versátil de artesanato, elas idealizaram uma condição legítima para fofocar, e assim cuidaram de si próprias.

Alzira Borges é jornalista e articulista do Jornal Clarim.

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