O resultado do primeiro turno das Eleições Gerais 2026 é de fato uma guinada à direita do eleitorado, manifestada nos governadores eleitos e nas novas composições das assembleias legislativas e Congresso Nacional. Contudo, a disputa para presidente da República começa muito acirrada e indefinida neste segundo turno.
Como demonstra a histórica diferença no primeiro turno de apenas 1,87% (2,2 milhões) dos votos válidos entre Flávio Bolsonaro (PL) com 47,03% e Lula (PT) com 45,16%. Além disso, a abstenção foi a maior desde 1998 com mais de 33,4 milhões (21,08%) de eleitores que não foram às urnas, mas agora devido a essa polarização mesmo que seja uma pequena parte pode querer votar.
O candidato que mais animar esses eleitores a comparecerem às urnas para se posicionar tende à vitória, porque é muito difícil reverter o voto dado no primeiro turno. Por outro lado, o candidato que mais assustá-los pode aumentar a sua rejeição e perder devido ao equilíbrio dessa disputa.
Os discursos são dosados e novos fatos monitorados pelas campanhas sob enorme pressão, já que esses desanimados eleitores não se posicionaram à direita ou esquerda e, por isto, a princípio não se sentem representados pelos dois candidatos.
Os votos brancos (1,84%) e nulos (2,93%) para presidente totalizaram apenas 4,77% dos válidos no primeiro turno, o que também reflete o voto útil de eleitores dos demais candidatos à direita para Flavio Bolsonaro na vontade de encerrarem a eleição no primeiro turno. Esse movimento foi menor em relação à migração de votos para Lula vencer no primeiro turno. No entanto, o segundo turno não deixa de ser uma nova eleição com cada um dos candidatos escolhendo a sua estratégia de campanha conforme o primeiro resultado.
Agora são apenas duas candidaturas a presidente, o que mobiliza mais o eleitorado de um e de outro na corrida pelo comando do país. Mais do que a propaganda no rádio e na televisão que começa nesta sexta-feira, 9, a expectativa é em relação à participação dos dois nos debates, o primeiro está previsto para este domingo, 11. Afinal, nenhum deles debateu com os demais candidatos no primeiro turno. O eleitor recebeu genéricas propostas de governo que funcionam como apelos eleitorais sem planejamento.
O mais preocupante é o comprometimento do contrapeso entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário que já afeta o país, inclusive o pleito. A reeleição de 60% dos atuais deputados federais é um exemplo da falta de renovação. O valor destinado às emendas de deputados e senadores no orçamento da União de 2026 é mais de R$ 61 bilhões, sendo que R$ 37,8 bilhões deste total são para as impositivas.
E quando essas emendas não estão vinculadas a projetos, convênios e contratos específicos são chamadas de transferências especiais (Emendas Pix), repassadas diretamente ao caixa do município ou Estado, o que de fato permite o uso mais rápido do recurso, porém também facilita a corrupção e o desperdício do dinheiro público. Recentemente, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), essas Emendas Pix passaram a ser monitoradas para evitar o indevido uso de recursos públicos inclusive em campanhas eleitorais.
Decisão que embora esteja correta, aumentou o conflito entre os poderes constituídos que chega a sua máxima com a realização destas eleições. O Poder Judiciário brasileiro está desgastado com os fortes indícios de envolvimento com o banqueiro investigado Daniel Vorcaro de pelo menos cinco ministros do STF – indicados por presidentes de direita e esquerda, e ainda mais por intervenções no processo eleitoral. Um poder desnudado que exige não só o impedimento de ministros se for o caso, mas essencialmente uma completa reestruturação.
O Executivo transita nos conchavos que devem ser feitos para ter governabilidade desde a composição do staff, enquanto necessárias mudanças continuam nas gavetas dos poderosos. E sempre quem vence a disputa presidencial tem que buscar o apoio de uma maioria no Congresso Nacional, independentemente do seu partido. É uma constante troca de favores que se distancia cada vez mais dos reais interesses da sociedade.
Os dois candidatos devem deixar claro para o eleitorado brasileiro quais as reformas constitucionais que pretendem propor para assegurar a democracia com o necessário equilíbrio entre os poderes constitucionais e quais são os seus principais planos de governo.
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