Uma investigação conduzida pela organização Mercy For Animals (MFA) documentou a trituração de pintinhos machos recém-nascidos em um grande incubatório da indústria de ovos na Região Sul do Brasil. De acordo com a entidade, cerca de 35 mil animais foram mortos em um único dia na unidade investigada, cujo nome foi mantido em sigilo.
Com menos de 24 horas de vida, as aves eram descartadas em máquinas com lâminas rotativas de alta velocidade. A prática ocorre porque os machos não põem ovos e não possuem genético adequado para a produção de carne, sendo separados das fêmeas e descartados logo após o nascimento. A MFA alerta que os maceradores mecânicos nem sempre causam morte imediata, prolongando a dor.
A vice-presidente de Investigações da organização, Luiza Schneider, enfatizou que o objetivo do relatório foi retratar uma prática comum em quase toda a cadeia produtiva de ovos.
“Os pintinhos recém-nascidos têm plena capacidade de senciência, o que significa capacidade de sentir medo ou dor física. Eles têm o sistema nervoso completamente formado”, pontuou Schneider. O relatório também registrou o descarte pontual de fêmeas com anomalias ou excedentes.
Sexagem in ovo surge como alternativa tecnológica
Como alternativa ao abate, entidades defensoras do bem-estar animal apontam a sexagem in ovo, tecnologia capaz de identificar o sexo do embrião ainda durante a incubação. O método permite retirar os ovos com embriões machos antes da eclosão.
A prática já ganha força internacional. Dados da Innovate Animal Ag indicam que países como Alemanha, França, Áustria e Itália aprovaram legislações que proíbem o descarte mecânico, enquanto Noruega e Suíça avançam no banimento por exigência do próprio mercado.
No cenário nacional, a primeira máquina de sexagem in ovo foi instalada no meio do ano passado no incubatório da Hy-Line do Brasil, em Nova Granada (SP), tendo a Raiar Orgânicos como cliente inicial para a conversão de seu plantel.
Custos econômicos e mercado consumidor
Apesar dos avanços, o custo financeiro permanece como o maior entrave para a expansão do método no Brasil. A tecnologia de sexagem gera um acréscimo estimado de 80% a 150% sobre o valor da ave, elevando o custo unitário em até R$ 10. No entanto, o impacto no valor final do produto é reduzido, representando poucos centavos de real por dúzia de ovos ao longo do ciclo produtivo de uma galinha poedeira.
“O fato de países europeus implantarem a técnica mostra que o custo da mudança não inviabiliza o setor”, argumenta Vanessa Garbini, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da MFA.
Empresas como Planalto Ovos, Grupo Mantiqueira e Korin já manifestaram compromissos públicos para suspender a trituração assim que houver viabilidade operacional e econômica escalável.
Pesquisas da Innovate Animal Ag apontam que 73% dos consumidores brasileiros se sentem desconfortáveis com o descarte de pintinhos, e 76% dos entrevistados afirmam estar dispostos a pagar mais por ovos produzidos com a tecnologia sustentável.
Projetos de Lei em tramitação no Congresso
Embora o Brasil não possua uma legislação federal específica banindo a prática, a discussão avançou no Congresso Nacional:
- PL 783/2024: De autoria da deputada Luciene Cavalcante (PSOL-SP), o projeto tramita na Câmara dos Deputados e aguarda envio ao Plenário após receber parecer contrário na Comissão de Agricultura.
- PL 3034/2026: Apresentado recentemente pela deputada Heloísa Helena (Rede-RJ), o texto está na fase inicial de análise legislativa.
A Mercy For Animals informou que enviará uma denúncia formal ao Ministério Público para apuração das práticas e avaliação do enquadramento do descarte nos dispositivos constitucionais e ambientais que proíbem maus-tratos e crueldade contra animais.
Fonte: Agência Brasil
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