O Ministério das Relações Exteriores emitiu um alerta contundente ao Congresso Nacional sobre a segurança do país. Em pelo menos duas respostas oficiais a requerimentos de informação de deputados federais, o Itamaraty alertou para o risco de ações militares dos Estados Unidos no Brasil. A preocupação surge após o governo americano classificar formalmente as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.
“Há a possibilidade do uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro”, adverte o documento mais recente da diplomacia, enviado à Câmara dos Deputados no dia 1º de julho de 2026 e assinado diretamente pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. A manifestação responde a um pedido de informações do deputado Evair Vieira de Melo (Republicanos-ES).
No texto, o chanceler brasileiro afirma que a decisão de Washington pode gerar impactos severos para a economia e para a soberania nacional. Segundo Vieira, as autoridades estadunidenses poderiam aplicar sanções administrativas e judiciais de caráter unilateral e extraterritorial contra pessoas, empresas e instituições brasileiras.
Sanções econômicas e ameaça extraterritorial
A classificação do PCC e do CV como grupos terroristas pelos EUA ocorreu em maio deste ano. Na semana passada, o Departamento do Tesouro dos EUA já aplicou as primeiras sanções econômicas decorrentes da medida, bloqueando os ativos de duas pessoas e três empresas brasileiras sob a acusação de supostos vínculos financeiros com o PCC.
Na resposta enviada ao parlamento, o chanceler brasileiro reforçou que as leis americanas antiterrorismo possuem brechas perigosas:
“A classificação unilateral poderia ser invocada como justificativa para ações extraterritoriais sobre instituições brasileiras, em particular no âmbito financeiro, migratório e penal. Há, ademais, o risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional”, reiterou o ministro.
Mauro Vieira destacou que não houve comunicação formal por parte de Washington ao governo brasileiro sobre a intenção de reclassificar as facções. A diplomacia brasileira avalia que a medida não traz benefícios práticos para a segurança pública de nenhum dos países.
“Militarização da agenda” e prejuízos à cooperação policial
Esta não é a primeira vez que o Itamaraty se posiciona de forma rígida sobre o tema. Em outro documento datado de 29 de maio de 2026, direcionado ao deputado Capitão Alberto Neto (PL-AM), o ministro já havia apontado os mesmos riscos estratégicos.
“No plano estratégico e econômico, tal reclassificação tenderia a militarizar a agenda regional de combate ao crime organizado, elevar custos de compliance das empresas e do sistema financeiro nacional e penalizar atividades lícitas”, sustentou o chefe do Itamaraty.
O chanceler argumenta que, dada a amplitude e a subjetividade dos termos aplicados na legislação de contraterrorismo dos EUA, cidadãos e companhias brasileiras comuns correm o risco de sofrer retaliações por “confusão” jurídica. O ministro concluiu alertando que a postura unilateral americana prejudica o compartilhamento de inteligência entre a Polícia Federal e as agências dos EUA (como o FBI e a DEA), ao misturar intencionalmente dois conceitos que a legislação brasileira trata de forma totalmente distinta: o crime organizado e o terrorismo.
Fonte: Agência Brasil
































